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Comportamento do consumidor: o triunfo do low tech

A filmadora digital que mais vende no site da Amazon não usa fitas, grava no máximo 60 minutos de vídeo e seu zoom deve ser usado com parcimônia para não distorcer a imagem. Ela não tira fotos, não grava DVDs e tem apenas quatro botões na superfície. O mais importante é grande, vermelho e fica em destaque: serve para começar e parar as gravações. E é isso. Mesmo indo na contramão das concorrentes, cada vez mais sofisticadas, a Flip Video já tem 13% do mercado de filmadoras nos Estados Unidos, de acordo com o fabricante, a americana Pure Digital. A Flip Video é expoente de um grupo de produtos que abriram mão das possibilidades técnicas em nome da simplicidade radical -- e viraram hits. No hipercompetitivo mercado de eletrônicos, os diferenciais tecnológicos são cada vez mais específicos e têm prazo de validade cada vez mais curto. Novidades anunciadas por uma empresa estão em poucos meses em todos os produtos dos concorrentes. Faça um teste: tente se lembrar, de cabeça, de uma câmera fotográfica digital que tenha algum recurso único, memorável. A menos que você acompanhe obsessivamente todos os lançamentos, provavelmente vai ficar sem resposta. Mas quem já manuseou uma Flip ou jogou o videogame Wii, da Nintendo, não esquece a experiência tão cedo. Ambos são dois exemplos definitivos de que não é só de tecnologia por centímetro quadrado que se faz um produto de sucesso. Low tech? Sim, e com muito orgulho.


Eee PC - Asus (notebook)
Em que é low tech
- A capacidade de armazenamento é muito baixa
- Não tem drive para CD e DVD
- A tela e o teclado são pequenos

Por que virou um hit
- Extremamente portátil, pesa menos de 1 quilo
- Explora a idéia de conectividade em qualquer lugar, com conexão wireless
- O preço é baixo


NAS REVENDAS DE ELETRONICOS no Brasil, um dos modelos de computador mais procurados é do tamanho de um caderno pequeno, pesa menos de 1 quilo, tem uma tela de apenas 7 polegadas e um teclado apertado. Sua capacidade de armazenamento é de apenas 4 gigabytes, uma fração dos discos rígidos dos notebooks comuns. Ele não tem leitor de CDs nem de DVDs e vem equipado com o sistema gratuito Linux. Mesmo assim, o Eee PC, da taiwanesa Asus, é um sucesso absoluto. A importação não consegue dar conta da demanda. Quando o produto chega, mal pára nas prateleiras das lojas especializadas. A Asus já produzia laptops tradicionais, mas abriu um novo e enorme mercado com o Eee PC, que cai na categoria dos UMPCs, ou computadores ultramóveis. Em 2006, a empresa vendeu 6 milhões de notebooks. Neste ano, graças ao sucesso do novo modelo, as vendas devem chegar a mais de 12 milhões de unidades. Até a HP, maior vendedora de computadores do mundo, entrou na onda e apresentou em abril seu Mini-Note.

E por que tamanho sucesso? O Eee PC é o equipamento certo, na hora certa. "As pessoas estão trocando os computadores de mesa pelos notebooks para ter mais mobilidade", diz Peter King, analista do instituto de pesquisa em tecnologia Strategy Analytics. "Muitos usuários querem algo maior que um smartphone, mas de tamanho compacto." O preço também é muito atraente. Nos Estados Unidos, o Eee PC sai por cerca de 350 dólares. Aqui, com os impostos, fica entre 900 e 1 300 reais. Nessa faixa, há poucos computadores tão leves e pequenos. A Asus conseguiu explorar um mercado novo, de pessoas que não tinham acesso a notebooks. Os estudantes de análise de sistemas Tercio Lopes e Fábio Vasconcelos compraram um Eee PC para poder usar na faculdade e no trabalho. "Ando o dia inteiro com ele na mochila e pego ônibus sem me preocupar", diz Lopes. Ele é um dos moderadores de uma comunidade sobre o pequeno computador no Orkut, em que entram quase 30 pessoas novas por semana.

Um estudo feito pela Philips nos Estados Unidos mostrou que dois terços dos americanos perdem rapidamente o interesse por produtos que consideram complexos demais. Quando eles são simples e eficientes, o efeito é o contrário: os fãs passam a espalhar a palavra -- e a internet é uma peça fundamental na consagração dos equipamentos low tech de sucesso. Numa época em que as TVs de altíssima definição da imagem se tornaram objeto de desejo, seria de estranhar o sucesso da filmadora Flip. Mas ela acertou na mosca ao mirar uma nova e cada vez mais importante experiência visual: assistir a clipes curtos no computador. A Flip já nasceu conectada. Pode ser plugada diretamente ao PC (não é preciso usar nenhum cabo) e vem com um software de edição cujo passo final é o envio dos vídeos ao YouTube. Simples assim. Ninguém vai usá-la para guardar memórias do casamento ou de uma viagem à África, é claro. Mas, para os registros do cotidiano, basta tirá-la do bolso, ligá-la e sair gravando. "Os produtos mais bem desenhados não exigem um manual de instruções", diz Rachel Zuanon, coordenadora do curso de design digital da Universidade Anhembi Morumbi, em São Paulo. "As pessoas aprendem usando."


Flip - Pure Digital (filmadora digital)
Em que é low tech
- A imagem tem baixa resolução
- Não tem zoom óptico, apenas o simples
- O visor da câmera não pode ser girado

Por que virou um hit
- É fácil de usar, tem poucos botões
- Aproveitou a onda de vídeos na internet
- Não precisa de cabos para ligar ao computador nem para recarregar


Os hits low tech têm outro apelo: eles são divertidos. Os consoles de videogame da nova geração, Playstation 3 e Xbox 360, são equipados com chips poderosíssimos. Suas imagens têm alto grau de realismo e costumam chamar a atenção quando estão em exibição nas lojas. Mas, para quem põe as mãos num controle pela primeira vez, a frustração é garantida. São dez botões, dois joysticks e uma chave direcional, que devem ser usados em combinações específicas. Em outras palavras: a complexidade do sistema é tão grande que o jogo, por mais deslumbrante que seja na tela, perde a graça. Ou pelo menos era assim até a entrada em cena do Wii, o videogame da Nintendo. Quem examinar a especificação de seus componentes vai encontrar itens da geração passada. A qualidade visual dos jogos também não chega perto da oferecida por seus concorrentes. Mas a experiência é radicalmente inovadora. Basta movimentar o controle para que os personagens respondam na tela. Não há curva de aprendizado. Crianças pequenas, mulheres e até mesmo idosos põem as mãos no controle e começam a jogar em minutos. "A empresa entendeu o que as pessoas buscam num videogame: diversão", diz o designer Todd Sieling, sócio da Corvus Consulting, empresa canadense especializada em design de interação. Não por acaso, todo o material de marketing da Nintendo também é diferente. Enquanto Sony e Microsoft se concentram na tela dos jogos, a Nintendo inverte o foco -- para mostrar os jogadores. Desde seu lançamento, em novembro de 2006, foram vendidos mais de 20 milhões de Wii, tornando o console o líder em vendas da nova geração.


Wii - Nintendo(videogame)
Em que é low tech
- A qualidade gráfica dos jogos é baixa
- O processador é menos potente
- Não oferece extras, como um DVD player

Por que virou um hit
- Criou uma nova experiência de jogo
- Desbravou um mercado que não existia: mulheres e idosos
- O controle é intuitivo

Apesar do sucesso de alguns produtos low tech, é claro que eles continuarão dividindo espaço com aparelhos multifuncionais e complexos. Na indústria de eletrônicos, a inclusão de novas funções é uma das maneiras de tentar se diferenciar da concorrência -- mesmo que os usuários não tirem proveito delas. Mas simplicidade e capacidade não são excludentes. A maior prova disso é o iPhone, o celular da Apple. A tela sensível ao toque e o sistema operacional OS X são o estado da arte em termos de tecnologia. Mas o uso dos dedos para controlar o aparelho torna essa sofisticação invisível para o usuário. "Os consumidores querem equipamentos simples e práticos", diz Tomas Trabulsi, gerente de áudio e vídeo da Philips no Brasil, que está investindo na convergência de equipamentos e em interfaces mais amigáveis. A indústria de eletrônicos ainda tem muito a aprender com o triunfo dos produtos low tech. Um bom indicador são os controles remotos: quando eles tiverem apenas meia dúzia de botões, teremos chegado lá.


Fonte: Por Denise Dweck, in portalexame.abril.com.br
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