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Os fantasmas da imprensa brasileira

Transcrevo aqui a íntegra do artigo "Os fantasmas da imprensa brasileira", de autoria do professora Wilson da Costa Bueno, publicado no Portal Imprensa. Sempre mantendo sua característica crítica, o autor foge do lugar comum e nos permite refletir sobre questões que parecem cada vez mais institucionalizadas na sociedade de massa, como a responsabilidade sócio-ambiental, por exemplo. O tal do "marketing verde", segundo o autor, se constitui em uma praga que contamina a comunicação das indústrias tabagista, agroquímica, mineradora, biotecnológica, papel e celulose, entre outras que posam de "promotoras da sustentabilidade" na mídia e, na prática, não passam de organizações "cara de pau", que usam a comunicação para manter o discurso da hipocrisia empresarial. Vale a pena ler, refletir e comentar. Leitura obrigatória:


"Os velhos fantasmas continuam assombrando a imprensa brasileira. De um lado, a concentração abusiva dos meios de comunicação compromete a liberdade de expressão, marginalizando sobretudo aqueles que já não têm vez e voz. De outro, a cobertura tendenciosa de temas relevantes, inspirada em compromissos comerciais e em uma perspectiva conservadora que não está em sintonia com os novos tempos.

Neste cenário desfavorável, o esforço inútil de trancar os esqueletos (sociais, econômicos, ambientais) dentro do armário se contrapõe à desfaçatez da maquiagem, bancada por grandes interesses e instrumentalizada por agências e assessorias que têm acumulado cinismo e "know-how" no processo de limpeza de imagem de empresas predadoras.

Os espetáculos da "criança-esperança" colidem com os "big brothers", valorização do individualismo e da competição sem escrúpulos, explicitação de egos doentes, de posturas maquiadas para aumentar a audiência, um processo deplorável em que se esvaziam as mentes e se enchem os bolsos. E não adianta (nem se atreva) a reclamar para o bispo!

O noticiário recente está repleto de exemplos reveladores e desnuda à frente das câmeras os nossos fantasmas preferidos.

O primeiro deles consistiu na suspensão pelo Conar de duas campanhas publicitárias da Petrobrás que destacavam a excelência da gestão ambiental da empresa por entender que se tratava de "propaganda enganosa". Afinal de contas, como a Petrobrás pode proclamar a sua responsabilidade sócio-ambiental enquanto mantém uma concentração absurda, criminosa de enxofre no diesel, poluindo as nossas cidades e vitimando um número tão grande de cidadãos? Como se pode gastar dinheiro público para festejar a sua contribuição à comunidade quando, na prática, não tem efetivamente pago as indenizações por seus crimes ambientais e deixado à míngua os pescadores artesanais penalizados pelo vazamento da Baía da Guanabara?

Evidentemente, a Petrobrás não é a única empresa a praticar o marketing verde, uma praga que contamina a comunicação da indústria tabagista, da indústria agroquímica, de mineração, de biotecnologia, de papel e celulose e da indústria da saúde, apenas para citar aquelas que investem centenas de milhões de reais para convencer-nos de que são promotoras da sustentabilidade quando, na prática, lesam repetidamente nosso patrimônio genético, nossas matas, nossa biodiversidade e nossa saúde.

O segundo exemplo diz respeito à cobertura específica da indústria tabagista, cada vez mais sob fogo cruzado de setores responsáveis da sociedade pelo seu impacto nefasto na saúde das populações, especialmente as mais jovens e as menos favorecidas. Apesar disso, a mídia insiste em divulgar as suas ações de "responsabilidade social" e em dar-lhes as mãos, certamente interessada em parcerias lucrativas. Como explicar a aparente contradição entre as reportagens sucessivas do Estadão sobre os deslizes éticos e as pressões insuportáveis da indústria do tabaco e o apoio pedido e recebido da Philip Morris para o seu programa de "treinamento de focas"? A imprensa, e os jornalistas em particular, precisam rever os seus conceitos porque parecem não ter feito a lição de casa, passada e repassada há tanto tempo por organizações como o Instituto Ethos, o Ibase e o IDEC.

O terceiro exemplo vem da indústria de biotecnologia (leia-se Monsanto, Sygenta, Bayer, Du Pont etc) que alardeia seu compromisso com a eliminação da fome pela tecnologia (a gente está percebendo, neste momento, que a solução está na vontade política e que falta alimento exatamente a quem já está subnutrido!) ao mesmo tempo em que acirra o lobby para consolidar o perigoso monopólio das sementes e o ataque final à biodiversidade. Que tal a leitura da revista Panorama Rural de março que destaca os "benefícios ambientais dos transgênicos" numa operação casada (anúncio x reportagem) com a Monsanto e seus porta-vozes? Mídia e anunciante nem ao menos usaram de sutileza para esconder o acordo: à página dupla de anúncio do Roundup Ultra segue-se, nas páginas internas, uma entrevista com o gerente técnico de biotecnologia da empresa que faz a apologia do glifosato (veneno vendido como remédio) e uma pesquisa para alardear as vantagens ambientais dos transgênicos. Quem são as fontes "independentes" desta reportagem? Uma consultoria com várias pesquisas realizadas a favor dos transgênicos, como se pode perceber em seu site (ela tem o direito de ter os seus clientes , é logico), uma entidade comprometida com a indústria de biotecnologia (ela tem o direito de fazer a sua opção, é verdade) e fontes do CIB-Conselho de Informações de Biotecnologia, suspeitíssima ONG financiada pelos fabricantes de transgênicos (arrogantemente comprometida com esta alternativa tecnológica e empenhada em desvalorizar a agricultura e o conhecimento tradicional).

Finalmente, o exemplo que vem da indústria da saúde, com a retirada sucessiva de medicamentos do mercado e as denúncias cada vez mais freqüentes de manipulação dos resultados de pesquisa e de tentativas de ludibriar a vigilância dos periódicos especializados (você sabia que há "laranjas" assinando artigos a favor dos laboratórios em revistas de prestígio?). Uma postura condenável e que culmina com a relação promíscua com profissionais da saúde, alvo de suas benesses e "jabás" de toda espécie (viagens, brindes valiosos, inscrições em congressos nacionais e internacionais etc). A reportagem de Vitor Pordeus, Ciência refém do marketing, publicada pelo O Globo escancara a verdadeira face da chamada "Big Pharma" que investe sabidamente mais em marketing do que em pesquisa e tem sido responsável por recentes "escândalos éticos" como o que envolveu o Vioxx da Merck. Pois não é que, ao retirar o remédio do mercado, já atropelada pelos inúmeros processos em curso nos EUA (que lhe rendeu bilhões de dólares em indenização), a empresa tentou "vender" aqui (respaldada pela sua agência de comunicação) a proposta de que se tratava de uma ação de responsabilidade social (respeito ao consumidor!)?

Os fantasmas (fontes comprometidas, falta de vigilância, concentração da mídia, interesses comerciais se sobrepondo ao interesse público) continuam desfilando por aí. Nas nossas universidades, na formação dos futuros jornalistas, como se pode ver, é fundamental incluir, além do "adestramento técnico", esta perspectiva mais ampla, uma visão mais lúcida do que anda acontecendo nas redações e acima delas. É preciso discutir e denunciar os interesses que rondam a produção jornalística, politizar (no bom sentido) o debate, buscando enxergar além da notícia. Para a formação dos profissionais de imprensa, existe algo mais importante do que o "lead", os "releases", as "pirâmides invertidas" e a falácia do jornalismo informativo (tem gente ainda insistindo nessa tese como se os veículos estivessem realmente identificados com a isenção da informação!).

Os fantasmas podem e devem ser combatidos com o debate franco, o diálogo, a conscientização dos jornalistas e a denúncia das tentativas de engodo promovidas por fontes comprometidas até o último fio de cabelo com os seus clientes e patrões. Eles fazem parte deste mundo moderno que cultua a transgenia informativa (monofontes, geralmente executivos das grandes empresas e autoridades em geral).

Para a nossa querida Petrobrás (como a gente gostaria de poupá-la pela sua competência tecnológica e excelência em recursos humanos!), talvez seja razoável encomendar pesquisas envolvendo o óleo de peroba, biocombustível, geralmente indicado para processos de limpeza de imagem e para organizações "cara de pau".

Cuidado com as fontes que andam assediando as redações (O CIB não pode jamais ser percebido como fonte isenta, muito pelo contrário!) e disseminando conceitos, produtos e práticas que são reféns de interesses poderosos.

Aos jornalistas que continuam dando ouvidos à indústria tabagista apenas um conselho: visitem os hospitais, consultem os médicos responsáveis, renunciem a esta passividade , repudindo os releases pró-tabaco. Conheça a história eticamente esfumaçada das grandes empresas fumageiras (os "Morris" e "cruz" que trazem no nome são apenas uma pista de que a saúde de todos nós está em perigo).

Vamos afinar definitivamente os conceitos. Responsabilidade sócio-ambiental não é etiqueta que se pode associar a qualquer empresa ou organização. De novo, o provérbio: quando se poupa o lobo, condena-se à morte a ovelha.

Em tempo: onde estão as árvores plantadas pela Ipiranga e sua campanha ridícula em favor da sustentabilidade? Quando começa e quando terminará efetivamente o "recall" do Fox (não é que a montadora sentiu no lombo o peso de sua omissão e negligência?) Depois da explicitação dos grandes poluidores das nossas cidades (empresas siderúrgicas, petroquímicas etc, etc) por pesquisa e reportagens recentes, que credibilidade passam a ter os seus balanços sociais e as entidades que lhes têm conferido prêmios de responsabilidade social (que inclui a gestão ambiental?). Até quando a gente vai ter que aturar esta sacrossanta hipocrisia empresarial?"



Fonte: Por Wilson da Costa Bueno, in portalimprensa.uol.com.br
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