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Vida nova para a velha mídia impressa

Arautos da revolução vivem de bradar aos céus que nada será como antes e estamos todos condenados — salvo os poucos iluminados que seguirem à risca os mandamentos do profeta.

Funciona para chacoalhar a inércia e indolência. Mas o fim não está próximo. Da mesma maneira que a indústria musical morreu mas a música explode de vitalidade, o negócio da comunicação está morrendo mas mutações inesperadas vão nos surpreender. Meus fundos de agenda têm listas compridas de idéias malucas que me encafifam. Hoje: mídia impressa.

Jornal é para velho
Ninguém com menos de 25 anos compra jornal — já é chavão. Uma boa solução foi o aparecimento do jornal só para jovem, e grátis, como o Metro. Tenho uma melhor: o jornal para velho. Considere: quem chegou aos 50 anos lendo jornal todo dia não vai largar agora. É hábito arraigado das manhãs — as casquinhas de pão francês melecando de requeijão o segundo caderno.

Minha sogra tem 87 anos e consome a Folha. Como leitor de jornal no Brasil é abonado, tem assistência médica e a ciência avança, quem tem 50 hoje chega a 90 em 2048 fácil. Essa é, então, a data marcada para a morte dos jornais. Até lá, tem muito chão. Quem se adaptar vive mais quatro décadas.

Cabe fazer um jornal que faça sentido para a terceira idade. Organizado e agradável. Letras grandes. Temas apropriados: investimentos para aposentadoria, questões de saúde, de família. Reportagens sobre imóveis para quem têm os filhos saindo de casa para casar (mas quer receber os netos no domingo). Sem terrorismo policial nem blablablá pseudovanguardista. E muita dica de como se manter jovem, em corpo e espírito.

É fundamental fazer isso sem contar para o leitor nem para o mercado anunciante que está sendo feito, porque na nossa sociedade boba, ter mais de 50 pega mal, e quase toda empresa quer associar sua marca à juventude.

Revista é media kit
Já fiz jornal, rádio, internet, gibi, figurinha, livro e até um pouquinho de TV. Revista é uma paixão diferente. E é o que mais está virando várias outras coisas inesperadas.

A revista customizada é um modelo. Existem muitas bemfeitas. Poucas bem utilizadas. A lógica da revista customizada é ser uma ferramenta de fidelização.

Um exemplo besta. Sou cliente do Pão de Açúcar. Tenho um cartão lá que não me serve de nada, e se serve, é tão pouco que nem percebo. Ora, o Pão de Açúcar precisa de um clube de vantagens/programa de milhagens que beneficie de verdade seus melhores clientes de várias maneiras — com descontos visíveis, sim, mas com surpresas, mimos, benesses várias, e uma bela revista mensal no começo do mês na minha casa. Mas isso não depende do editor, depende do Pão de Açúcar (ou da Shell, do Submarino, do América ou da locadora da esquina).

Também acredito nos “big books”, a revistona grossa, linda e permanente, que o leitor jamais terá coragem de jogar fora. É o modelo Vanity Fair, que é aplicável para revista de carro, jardinagem, tecnologia, criança ou o que você quiser.

O ponto mais importante das revistas é como elas conversam com sua comunidade na internet. Uma revista em papel, bem-feita e respeitada, é o melhor media kit que um site pode ter. A presença física confere autoridade ao conteúdo online. O anunciante se beneficia do prestígio de estar no impresso; e online, da audiência gigante e de comportamento mensurável. A proporção lógica: para cada comprador do exemplar impresso, cem usuários na comunidade online.

Internet é mídia impressa?
Os grandes portais brasileiros foram criados e são dirigidos por jornalistas que vieram da mídia impressa — que, no nosso país, é quase totalmente dirigida para a tal classe A/B. E, por isso, nossa internet só fala com esse segmento.

Esses jornalistas são alguns dos melhores da minha geração e tive a alegria de trabalhar e aprender com vários desses amigos. Mas o futuro exige uma abordagem mais inclusiva. Segundo pesquisa da GV, o número de PCs vai dobrar até 2012, para 100 milhões de computadores.

É hora de criar a web para quem não fez universidade, nunca viajará para o exterior, não tem TV paga, não sabe o que é browser, não compra em sale, não ouve (e nem sabe o que é) blues e votaria no Lula no terceiro, quarto e quinto mandatos. Vamos chamar de NetBanda Calypso, NetPeriferia, NetCrente, NetSupletivo, NetAssolan, NetPopular, NetPop.

Se você considerar que parte imensa da receita da web vem de anunciantes do varejo, pode imaginar o quanto é importante atrair essas pessoas. Lembre: vamos dobrar o número de PCs nos próximos quatro anos. Isso sem nem falar da NetPop em celular.

Essa nova NetPop tem exigências de interface, navegação, usabilidade completamente diferentes do que hoje vemos nos grandes portais — que jamais se adaptarão a essa nova audiência (e nem deveriam, porque perderiam seu público atual). Novos portais populares, desenvolvidos pelos players atuais ou não, vão mudar nosso cenário online. E nosso cenário político e cultural. São novos meios de comunicação de massa, chegando às grandes massas, em plataformas interativas e com resultados imprevisíveis. Mal posso esperar.


Fonte: Por André Forastieri - Diretor geral da Futuro Comunicação e diretor editorial da Tambor Digital, in www.meioemensagem.com.br
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