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Os desafios da comunicação na burocracia

Para falarmos sobre Burocracia, Comunicação e Desenvolvimento é necessário contextualizar a comunicação como processo social e campo de conhecimento nas empresas, instituições e na sociedade.

Na atualidade, a comunicação como uma das Ciências Sociais Aplicadas não é um campo de científico isolado e compreende um conjunto de conhecimentos originários da Política, da Lingüística, da Psicologia, da Antropologia, da Filosofia, da Cibernética, da Administração, dentre outros, relativos aos processos de relacionamento e interação entre pessoas, organizações e países.

No âmbito profissional, a comunicação abrange, a cada dia que passa, mais e mais especializações nos meios impressos, audiovisuais, digitais e multimídias.

A atividade de “tornar comum”, “partilhar”, “repartir”, “associar”, “trocar opiniões”, “conversar”, “conferenciar”, “ouvir”, “espionar”, “grampear”, emitir e receber informações se expressa socialmente e comercialmente, por exemplo, no número de celulares, no Brasil, estimado em 128 milhões de aparelhos, e de quase 50 milhões de usuários de internet, segundo dados da ANATEL (abril de 2008), ou ainda em episódio como os das prisões recentes feitas pela Polícia Federal, ou finalmente no valor de empresas como a Microsoft, a Apple, a Google, o Youtube etc.

No que é relacionado ao tema da burocracia e comunicação, o seu estudo se dá dentro do campo da comunicação organizacional, que pode ser definido como aquele que estuda o processo comunicacional com os inúmeros públicos das empresas e instituições e com a sociedade, em ambientes, cada vez mais complexos.

Um campo que conquista densidade estratégica pelo importante protagonismo que as empresas e instituições têm em relação às questões ambientais, econômicas e sociais.

Um protagonismo organizacional expresso em temas, que para os comunicadores são o que chamamos de mensagens complexas, tais como os novos embates no ambiente de trabalho, oriundos das questões ligadas a gênero (homem e mulher no mercado de trabalho), ao etário, à identidade, ao étnico. Tudo isso somado ainda aos embates tradicionais como as reivindicações dos sindicatos, muitas vezes, resultantes em greves.

Outros temas complexos, desde os meados dos anos 1980, são tratados pela comunicação organizacional brasileira, entre eles, a mudança do perfil do Estado Brasileiro para um modelo menos autárquico, as reestruturações produtivas, principalmente a mudança do modelo taylorista para o modelo toyotista de produção e outros. Poderíamos ainda lembrar da conquista das indispensáveis certificações internacionais de qualidade, dos atuais indicadores de sustentabilidade, da importância da comunicação da responsabilidade social, não esquecendo, frente aos escândalos corporativos recentes, da comunicação da governança, dos números da produtividade e da rentabilidade.

Ainda, no contexto da internacionalização das maiores e tradicionais empresas brasileiras, entre elas, a Odebrecht, Gerdau, Camargo Correa, Petrobras, Vale, Votorantim, Weg e a Natura, dentre outras, a necessidade de implementar uma comunicação intercultural em todos os continentes.

Todos os temas citados, potencialmente, são geradores de controvérsias e de inúmeros pontos de vista. Exemplos: instalações e rotinas especiais para deficientes, cotas para minorias, legitimação de comportamentos sexuais, até então, à margem, são temas que geram naturalmente muitas opiniões.

O projeto e a construção de instalações, em setores de energia, petróleo, química, por exemplo, têm de ser duramente negociados com organizações não-governamentais, comunidade e autoridades. Tudo sob o foco da imprensa local, regional e mundial.

Diante desse ambiente, as empresas em suas atuais escalas e poder devem se comportar como um Estado em harmonia com a sociedade, procurando equilibrar-se no tripé apontados por Bobbio: comunicando a sua competência, a sua legalidade e a sua legitimidade.

Pesquisas da ABERJE, – associação que há 40 anos trabalha pioneiramente no Brasil pela consolidação do campo e da profissão do comunicador de empresas e instituições, – inúmeras monografias, dissertações de mestrado e teses de doutorado têm revelado que os departamentos de comunicação das grandes empresas brasileiras têm entre as suas atribuições áreas como relação com investidores, comunicação interna, relações governamentais, relações com a comunidade, relações com a imprensa, responsabilidade social e sustentabilidade, gestão de crises, dentre outras.

Todo esse conjunto de questões públicas produziu uma nova comunicação organizacional, não só técnica, mas, também ética e estética, que frente a um mundo, no qual, com certeza o antigo poeta grego Hesíodo, que descreveu o mito das idades da humanidade, não gostaria de pertencer.

Como se fosse uma metáfora de nossa época, Hesíodo, relatado por Gustav Schwab (1792-1850), diz:

“Quisera eu não ser um membro da [...] geração de homens, que surgiu agora, quisera eu ter morrido antes ou nascido mais tarde!

Pois esta geração é a do ferro! Totalmente arruinados, estes homens não têm sossego de dia ou de noite, cheio de queixas e de problemas, e os deuses sempre lhes enviam novas e devoradoras preocupações”.

As novas preocupações lembram, de certa forma, os riscos elencados por pesquisa recente do The Economist (apud Reputação e Imagem, 2005, p.11). Eles são:

“Risco de reputação e imagem (por ex.: acontecimentos que prejudiquem a confiança pública nos produtos ou na marca da empresa);

Risco regulatório (problemas provocados por novas leis ou regulamentos já existentes);

Riscos de capital humano (por ex.: escassez de pessoal qualificado, questões de sucessão, perda de funcionários-chave);

Risco de rede e TI (por ex.: violações e quedas de sistema);

Risco de mercado (risco de queda do valor de mercado dos ativos);

Risco de crédito (risco de dividas que não serão recebidas);

Risco-país (problemas de operação em um país específico);

Risco de financiamento (dificuldade em obter financiamento);

Terrorismo;

Risco de catástrofe natural;

Risco Político (perigo de mudança de governo);

Criminalidade e segurança física”.

Vale lembrar que na sociedade que organiza a sua comunicação e o seu relacionamento em rede, as questões organizacionais destacadas têm o potencial de disseminação em tempo real e com abrangência global, sob a forma de notícias negativas.

No ambiente descrito é impossível, e destrói valor para as organizações, decidir e se comunicar, a partir de regras e normas ditadas pelo poder dos escritórios ou das empresas e instituições. É um momento em que as organizações perderam a centralidade. Não é mais a universidade, a igreja, a empresa, dentre outras organizações que produzem imperialmente conteúdo. Na sociedade em rede, todos, independentemente de seu poder, de seu capital, da sua posição na hierarquia produzem conteúdo. É na negociação ou na guerra entre conteúdos que as organizações constroem a sua imagem e reputação.


Fonte: Por Paulo Nassar, in www.aberje.com.br
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