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Gripe suína, boatos e a boa Rádio Peão

A notícia estava na Folha de S.Paulo do dia 19 de maio último e tinha como título: "Governo cria grupo contra boato sobre gripe". O repórter Daniel Bergamasco explicava já no lead da matéria: "O Ministério da Saúde criou uma equipe de oito pessoas para responder boatos na internet sobre a gripe suína. Com cinco contratados especialmente para a missão, o grupo vasculha comentários em cerca de 400 blogs e sites, como Orkut e Twitter. Quando percebem informação falsa que possa alarmar outros internautas, os agentes escrevem comentários com dados corretos sobre sintomas, vítimas etc."

Puxa, a notícia é mais do que alvissareira. Em primeiro lugar, porque evidencia a disposição do Ministério da Saúde de entrar firme na guerra da informação, buscando esclarecer os cidadãos , evitar o pânico ou a circulação de informações não qualificadas, numa autêntica cruzada a favor da cidadania. Em segundo lugar, porque retira aquele mito de que as ações de comunicação do Governo devem estar sempre focadas na promoção pessoal e de partidos ou que se reduzem a campanhas publicitárias com objetivos meramente eleitoreiros. Há felizmente uma boa comunicação pública também. Na verdade, repetidamente os governos têm optado pela propaganda em vez do diálogo e com isso têm-se caracterizado, ao longo do tempo, por um processo formidável de incomunicação, mas há exceções e elas não podem deixar de ser calorosamente aplaudidas. Em terceiro lugar, porque, cada vez mais, legitima o Ministério da Saúde como "entidade" comprometida com a luta contra grandes interesses.

Se você anda acompanhando com atenção o noticiário deve estar percebendo que o Ministério da Saúde tem enfrentado com coragem alguns lobbies formidáveis (indústria tabagista, laboratórios farmacêuticos, indústria agroquímica e de alimentos etc) resgatando o que deve ser efetivamente a missão do Governo e do Estado. No fundo anda muito melhor do que alguns jornalões (Folha e Estadão, por exemplo) que insistem em promover cursos para jovens jornalistas com o apoio da Philip Morris, ainda que não tenham dúvida de que a indústria tabagista adote uma postura tradicionalmente não ética, não transparente, empenhada em manipular a informação. Mas negócio é negócio, não é verdade? Pelo menos assim pensam os nossos empresários da comunicação que, quase sempre, têm compromisso apenas com os seus amigos e os seus cofres.

Os boatos costumam proliferar em momentos de crise e tendem a produzir efeitos nefastos, se encontram ambiente favorável. Caso as autoridades (no caso da gripe suína) não demonstrem disposição e competência para enfrentá-los e não disponha de credibilidade para se fazer ouvir, certamente os oportunistas de plantão (olho vivo nas campanhas de laboratórios nesse momento, interessadíssimos em vender medicamentos e em estimular a automedicação) estarão a postos para lucrar com a desinformação de pessoas simples.

Uma sociedade absolutamente conectada é prato cheio para a veiculação de boatos que têm como objetivo favorecer empresas, pessoas, governos e assim por diante. Quase sempre, esses boatos penalizam os cidadãos, notadamente os das classes menos favorecidas, aqueles que encontram dificuldade (o índice de analfabetismo funcional no Brasil é elevadíssimo) ou não têm recursos para acessar rapidamente especialistas que possam tirar as suas dúvidas.

Essa situação demonstra a necessidade de o Governo dispor de canais próprios para veicular informações relevantes e não ficar refém da mídia tradicional porque ela necessariamente não tem os mesmos compromissos e objetivos, ainda que, aqui e acolá (os bons exemplos merecem ser saudados), possa contribuir decisivamente para enriquecer o debate de temas nacionais e aumentar a vigília sobre a gestão da coisa pública.

Na área da Comunicação Empresarial, a questão dos boatos tem sido tratada de maneira equivocada na maioria das vezes porque empresários e executivos (inclusive de Comunicação) costumam ser arrogantes (como os presidentes da Petrobrás e da Vale, para só citar dois casos) e preferem o monólogo ao diálogo, certamente confiando no poder de suas empresas e em investimentos pesados em propaganda (como gastam dinheiro a Vale e a Petrobrás para proclamar sua excelência ambiental, ambas sintonizadas com a praga do marketing verde). Como pode uma mineradora, que extrai os recursos minerais até esgotá-los definitivamente, proclamar-se sustentável? Como pode a nossa querida Petrobrás vangloriar-se de sua gestão ambiental, se em cumplicidade com as montadoras e a omissão de Governos (veja que não estou me limitando ao Governo Lula ), continua entregando um combustível sujo de dar dó, emporcalhando o ar das nossas cidades (aliás, que dramático o levantamento recente que dá conta da poluição dos parques de São por conta da sujeira dos automóveis)?

Nas organizações existe inclusive um termo pejorativo para designar um processo quase sempre espontâneo de comunicação - a Rádio Peão - demonizado por executivos porque se contrapõe à comunicação formal, institucional, em sua maioria não democrática, não transparente. Você já não ouviu dizer que a Rádio Peão é obra do sindicato? Pois é, tem gente que acredita nisso, como se os sindicatos (em boa parte organizações de fachada para receber as contribuições legais) tivessem mesmo esse poder de fogo. Todos sabemos que mesmo alguns dos mais representativos sindicatos ou centrais estão na verdade cortejando as autoridades. Pois não é verdade que nunca tivemos tantos sindicalistas buscando brechas no Governo por pura ambição pessoal? Estou errado?

A Rádio Peão nas organizações precisa ser contemplada de outra forma porque, como temos insistido, ela se constitui num processo natural de troca de informações (é lógico que há espaço para boatos, o que acontece até nas melhores famílias, não é verdade?), onde entram em jogo interesses pessoais, recalques, mas também o desejo franco de interagir independentemente do controle das organizações. Embora as empresas torçam o nariz para estas conversas paralelas, elas são necessárias e fazem parte do convívio humano, sobretudo neste momento em que estamos sendo empurrados para a comunicação mediada pela máquina, com pouco espaço para o afeto, o diálogo, o olho no olho e a solidariedade.

A Rádio Peão só é nociva em ambientes onde não há transparência, espaço para o debate, abrigo para a divergência e a pluralidade de idéias e opiniões. Quando as pessoas podem abertamente colocar suas posições, onde os subordinados podem tirar suas dúvidas junto a chefes (com credibilidade, o que é cada vez mais difícil de se encontrar), o boato não tem vez porque não encontra ambiente para florescer. Nas organizações onde a comunicação interna continua sendo o berço da censura, da auto-censura, da chantagem moral ("manda quem pode, obedece quem tem juízo!), a Rádio Peão tem um papel importante ao contrapor-se ao autoritarismo, na tentativa desesperada de furar o cerco do silêncio, da informação manipulada pelas chefias.

Uma empresa como a Embraer, que apunhala pelas costas mais de 4.0000 funcionários, deveria ter uma Rádio Peão pra lá de barulhenta porque recusa a transparência e o relacionamento saudável com os seus "colaboradores "(odeio esse termo porque como se pode colaborar com uma empresa com esse perfil?). E como a Embraer há milhares de empresas por aqui que , como alguns parlamentares, se lixam para os seus funcionários, a sua opinião pública interna. Nos momentos de crise, aumentam inclusive a sua reduzida disposição para dialogar, quando não promovem o pânico interno, com ameaças de demissão a todo momento.

Os boatos que penalizam os cidadãos devem ser combatidos e o Ministério da Saúde, se é verdade a notícia da Folha (os jornais também andam cheios de boatos), merece parabéns pela iniciativa. Já as organizações e as chefias com mão de ferro, com ouvidos que não ouvem e braços estendidos para açoitar os que ousam divergir merecem o nosso repúdio. Que a Rádio Peão as infernize o tempo todo, ruidosamente.

Algum dia as organizações vão se dar conta de que a Rádio Peão (com certeza outro termo será cunhado para designar esse processo, embora até goste desse!) pode ser uma parceira. Talvez descubram também (já era tempo!) que a Rádio Peão não pode ser calada e que ela é mais estridente quanto maiores forem os esforços para que o silêncio prevaleça internamente.

Abaixo a ditadura da comunicação interna. Rádio Peão nela!

Em tempo: quem autorizou o concurso cultural ("que piada sem gosto!") da Bayer em favor da Aspirina? O Ministério da Saúde, a ANVISA estão sabendo disso? Vai continuar assim, sem ninguém tomar qualquer providência? Não há cultura alguma nessa porcaria de concurso a não ser a cultura do incentivo à medicação. Em época de crise, de gripe, de dengue, oferecer dinheiro, fazer cadastro de pessoas para vender remédio é um crime. Daqui a pouco os laboratórios vão pedir patrocínio da Lei Rouanet para suas ações mercadológicas completamente descabidas. Salve a cultura da ignorância e da impunidade! Repito: é bom ler A verdade sobre os laboratórios farmacêuticos, de Márcia Angell, publicado pela Editora Record.



Fonte: Por Wilson da Costa Bueno - jornalista, professor da UMESP e da USP, diretor da Comtexto Comunicação e Pesquisa, in portalimprensa.uol.com.br
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