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Paradigma da complexidade aplicado à comunicação

A primeira ação presencial do projeto Diálogos ABERJE Universidade foi um estímulo para a necessária interlocução com outras áreas do conhecimento e para a flexibilização do suposto poder centralizador dos comunicadores. Um debate e o lançamento do livro “O Diálogo Possível: Comunicação Organizacional e Paradigma da Complexidade”, organizado pela professora Cleusa Scroferneker (PUCRS), aconteceu no dia 27 de abril de 2009 na sede da entidade em São Paulo/SP. Também esteve presente um dos autores, o professor Rudimar Baldissera (UFRGS).

Segundo Cleusa, "são múltiplas as possibilidades reveladas nas pesquisas ancoradas pelo Paradigma da Complexidade de Edgar Morin. São cinco artigos que se propõem a (re)ler, a (re)visitar a Comunicação Organizacional sob a ótica do Paradigma". A opção por ele tem base na "compreensão de que permite transitar com alguma segurança pelos antagonismos e contradições que marcam a comunicação das organizações e que demandam um pensar complexo". Ela é graduada em Comunicação Social pela Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul, possui mestrado em Planejamento Urbano e Regional pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul e doutorado em Ciências da Comunicação pela ECA/USP. Atualmente é professora titular da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul. “Não trabalhamos com certezas, é uma convivência saudável das certezas e incertezas. As possibilidades são abertas, cada um tem o seu olhar sobre o mesmo objeto”, analisa ela, enfatizando que todos os diálogos são possíveis e não há exclusão de paradigmas.

Para Baldissera, geralmente se pensa a comunicação organizacional do ponto-de-vista palpável, instrumentalizante. Na medida em que se conclui que “organizações são relações e comunicação são relações”, para além das questões do planejamento e da proposição de sentido arquitetado, há todo um panorama que não é do domínio da organização. São apropriações de diferentes sujeitos sobre a comunicação oficial e sua interpretação dentro de suas simbologias. “Imagem é significação, construída na mente do outro, numa gestão muito mais complexa do que traz a literatura no tema”, pondera. Ele possui graduação em Relações Públicas pela Universidade de Caxias do Sul, especialização em Gestão de Recursos Humanos pela Universidade do Vale dos Sinos, onde também fez mestrado em Ciências da Comunicação/Semiótica, e ainda doutorado em Comunicação Social pela Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul. Atualmente é professor adjunto do Departamento de Comunicação da Faculdade de Biblioteconomia e Comunicação e professor e pesquisador do Programa de Pós-Graduação em Comunicação e Informação da Universidade Federal do Rio Grande do Sul.

Os pesquisadores apontam que, nas universidades, a compreensão da comunicação é dizer o que se quer e não o dialogismo, quando não está pressuposto para onde se vai. Seria uma comunicação reorganizadora, fazendo análise de cenários, que nada mais seriam que análise de tensões de forças, na linguagem do professor. Daí que Cleusa acredita que os relações públicas também precisem de um repensar, ter novas compreensões de cultura, de organização, para se afastar do foco em manuais e modelos e entender que há uma pluralidade de imagens e públicos. Modelo parte do princípio de uma permanência no estado das coisas, e não numa idéia necessária do processual. “Modelos são redutores, tentam colocar em gavetas as significações”, arremata Baldissera. A idéia de “sistema vivo”, portanto, predispõe aceitar o desequilíbrio, já que a desordem também é fundamental para dar movimento a tudo. E ela acrescenta: “o dialógico é trabalhar com antagonismos”.

Respondendo a pergunta do diretor-geral da ABERJE e professor-doutor da graduação e pós-graduação da Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo, Paulo Nassar, sobre uma possível “morte do planejamento”, Rudimar pondera que planejamento sempre predetermina, controla e deixa pouco espaço para a adequações de curso, sendo que o imaginário (individual ou coletivo) seria fundamental para a inovação. Normalmente, as organizações se propõem muito informativas e conscientizadoras para seus próprios interesses produtivos, o que vem sendo questionado. Cleusa vê no planejamento um caráter prescritivo e, no âmbito dos administradores, a visão da comunicação é instrumental. Afinal, organizações querem resultados e empregam modelos para isto, então romper com esta lógica é difícil. A transição de uma cultura da informação para a cultura da comunicação, na opinião da estudiosa, seria algo lento e relacionado com a cultura e com os gestores. Perguntada sobre como aplicar seus conceitos nas empresas, diante deste panorama, ela sugere o caminho do sonho, da listagem do que se tem positivo e do que se gostaria de mudar no ambiente e, identificados estes parâmetros, começar a introduzir uma nova versão de agir.

ABORDAGENS - A obra reúne os pesquisadores que, durante os seus períodos de estudo e pesquisa no Programa de Pós-Graduação em Comunicação Social da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul, fizeram parte do Grupo de Estudos Avançados em Comunicação Organizacional/GEACOR-CNPq. Materializa um dos principais objetivos do Grupo, ou seja, discutir sobre tendências e desafios, especialmente no que se refere à adoção de novos paradigmas. O primeiro artigo “Comunicação Organizacional: certezas e incertezas”, da própria Cleusa, propõe uma reflexão sobre as certezas e as incertezas nos campos teórico-empíricos da comunicação organizacional respaldada pelo paradigma. Em “A Complexidade e o Shopping-Center Iguatemi de Porto Alegre – a compreensão do jogo”, a Profa.Dra. Ana Soster traz parte do capítulo de metodologia da tese de Doutorado para articular e contextualizar os diferentes aspectos ao pensar globalmente e localmente com a metáforo do jogo de xadrez relacionando a complexidade comunicacional com os espaços de relação do empreendimento. Da Dra. Ana Maria Córdova Wels, da Fundação de Economia e Estatística/RS, tem o trabalho “As Assessorias de Comunicação Social de órgãos públicos prismatizadas sob a luz do Paradigma da Complexidade – uma abordagem com foco em organizações públicas do Poder Executivo Estadual”, onde são contemplados os princípios norteadores do pensamento complexo para amparar a análise dessas pequenas organizações que fazem parte de um ambiente maior em sistema interativo. “Intranet – compondo a rede autopoiética da organização complexa” é a contribuição da Profa.Dra. Jane Rech, da Universidade de Caxias do Sul/RS, com ênfase para as interações, relações, interrelações e retroações que ocorrem no ambiente da intranet, na tentativa de compreendê-las em sua multidimensionalidade. Já o texto “Por uma compreensão da Comunicação Organizacional”, de Baldissera, é um esforço para melhor compreender e explicar a noção de comunicação organizacional, bem como ressaltar algumas das tensões aí materializadas, assumindo a complexidade por três princípios básicos: dialógico, recursivo e hologramático. Todas as teses do Grupo estão disponíveis no link Pós-Graduação do endereço www.pucrs.br/famecos. Na área editorial, Cleusa anunciou a próxima produção partindo dos trabalhos na instituição gaúcha: o livro “Comunicação Organizacional: outros diálogos possíveis”, que deve ser distribuído em breve.

VISUAL – O Núcleo de Linguagem Audiovisual também participa desta ação com a gravação de impressões sobre o “estado da arte” e as tendências em diversas áreas do conhecimento, com professores reconhecidos, para disponibilizar no portal da entidade e gerar reflexões e busca por novas informações pelos profissionais envolvidos no cotidiano empresarial. Os materiais são oferecidos também no YouTube. Já deixaram seus depoimentos o Prof. Dr. Massimo Di Felice, da ECA-USP, falando sobre os conceitos de comunicação organizacional no sistema de redes digitais; o Prof.Dr. Eugênio Bucci, sobre o jornalismo no contexto da comunicação nas organizações e sobre Comunicação Pública; o Prof.Dr. João José Curvello, da Universidade Católica de Brasília sobre os desafios da comunicação interna; o Prof.Dr. Mitsuru Yanaze, que tratou da importância da mensuração no ambiente da comunicação organizacional; a presidente do Instituto Museu da Pessoa, Karen Worcman, falando sobre memória organizacional; a Profa. Suzel Figueiredo, diretora do Instituto DatABERJE e professora da Fundação Armando Álvares Penteado/FAAP-SP, e ainda o Prof.Dr. Evandro Ouriques, coordenador do Núcleo de Estudos Transdisciplinares de Comunicação e Consciência-NETCCON da UFRJ, abordando os desafios do novo comunicador.


Fonte: Por Rodrigo Cogo – Gerenciador do portal Mundo das Relações Públicas
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