Relações Governamentais vão muito além do lobby

A nova complexidade e dinâmica do ambiente, sob o ponto-de-vista da política e da estratégia corporativa, e os problemas sócio-políticos e a interação da sociedade com os poderes constituídos estão na pauta do Programa Internacional em Relações Governamentais, lançado neste dia 26 de junho de 2008 junto ao novo Comitê da área na ABERJE – reunindo a Associação Brasileira de Comunicação Empresarial, de Comunicação Organizacional e de Branding, em evento no Reserva Cultural em São Paulo/SP. A iniciativa de aperfeiçoamento profissional interdisciplinar, que envolve temas como cálculo de risco político, lobby, estratégia comunicacional e cálculo de viabilidade política, ocorre em convênio com a The George Washington University e The Jedi Group.

O interesse pela área na entidade não é novo. Desde os anos 80, especialistas como Said Farhat – que veio a escrever o livro “Lobby – o que é, como se faz” editado pela entidade recentemente – convivem e interagem com os comunicadores para formar equipes mais qualificadas para o desafio. O diretor-geral da ABERJE e professor da ECA/USP Paulo Nassar, ao dar boas-vindas às mais de 40 pessoas presentes, assinala que o tema é realmente transversal e que todo o intercâmbio com diferentes saberes deve ser bem-vindo para formatar melhores condições de tratar as múltiplas demandas e interfaces do relacionamento político. “A área de Relações Governamentais, além de ser estratégica para as empresas, é em termos de carreira profissional, o segmento do mercado de trabalho mais promissor. Os profissionais trabalham no âmbito das direções organizacionais e têm os melhores salários da área”, assinala. O trabalho no Comitê vai ser coordenado por Leandro Machado, gerente de Relações Governamentais da Natura Cosméticos, que complementa: ”A profissionalização da área dentro das corporações se faz absolutamente necessária e a ABERJE está investindo nesta que pode ser a peça que faltava na gestão sustentável: o lobby responsável”.

A George Washington University é a instituição mais reconhecida em Relações Governamentais do Estados Unidos. Seu diretor do Programa de Governança da Graduate School of Political Management, Luis Raul Matos, foi o convidado para falar das bases do conteúdo programático do treinamento e dar o tom da relevância das discussões. Ele, que também integra o corpo docente que vai estar no Brasil nos dias 7, 8, 21 e 22 de novembro de 2008 (ver detalhes no box abaixo), foi Ministro das Finanças, Senador e membro do Congresso na Venezuela, além de ter atuado como diretor do Banco Interamericano de Desenvolvimento. Sua experiência indica que política precisa estar na base dos processos decisórios e sua abordagem de ensino, além da cientificidade, tem que estar embasada num espírito prático. “Temos que trabalhar a política através da comunicação”, resume.

Como ele fala em interação, também trata de estratégia. Fazendo um paralelo com os jogos de futebol e as diferentes articulações entre os jogadores dependendo da nação, aproveita para indicar que a intuição é um componente também importante. Todavia, precisa ser gerenciada para consistir em vantagem. Ademais, Matos diz que ao falar em política, é preciso ver que a emoção estará sempre presente. E destaca: “mas a política não é aquilo que se fala, mas aquilo que se escuta. A história e a cultura têm um papel importante sobre como saber ouvir”, num enfoque válido tanto para a ênfase no Governo quanto para o trabalho focado nas comunidades.

Considerar que existe um movimento muito forte para que o poder seja transferido para os governos locais, que são muito mais suscetíveis às pressões da sociedade civil e de suas organizações, é o início de um novo conceito para atuar em relações governamentais. Pesquisa feita com 391 grandes corporações mundiais mostra a consciência sobre estes novos agentes e seus novos papéis, dizendo que o maior impacto dos públicos está com os funcionários (48%), com os consumidores (44%), com os Governos (38%) e com as comunidades (27%). Por sua vez, o LatinoBarômetro, estudo de instituições e políticas latinas, revelou já em 2006 os agentes sociais de maior confiabilidade: os primeiros lugares ficaram com os bombeiros (82%) e com a igreja (71%), e logo depois o rádio (69%) e a televisão (64%), seguidos dos vizinhos (58%) e do Presidente da República (47%). Governos, empresas, partidos políticos, Forças Armadas ficaram no final da lista.

ATIVISMO – O professor ressalta que não se pode restringir a ação a lobby, porque é uma palavra mal-vista em toda a América Latina, como uma “caixa preta na qual as pessoas não confiam na maneira como é feita”. Então, aponta o surgimento de uma nova terminologia: o ativismo corporativo com uma postura mais proativa, em que se identificam problemas já nas promessas de campanhas dos candidatos, não somente no ato da votação nos Parlamentos. Uma gerência política trata de abrir espaços de possibilidades, compreendendo o processo, analisando os fatores externos, atendendo a regras, assegurando a governabilidade, adequando disponibilidade de recursos e aplicando uma capacidade persuasiva. “A sedução não é forçar a aceitação, mas sim promover o desejo em comum, construindo confiança a longo prazo”, explica.

O entorno mudou muito. Ao afirmar isto, o palestrante aponta a emergência de novos atores políticos e novos projetos de governo com alterações de regime, dentro de realidades geopolíticas distintas, daí surgindo um novo contrato entre as comunidades e corporações, com poder disseminado. Atualmente, tudo seria um jogo de comunicação bastante forte, com investigações, antecipações de cenário e preparação de estratégia para estar pronto na hora certa. Citando Luhman, Habermas e Arterton, ele diz que o sistema político é em essência um sistema comunicacional. Todo projeto de mudança requer uma estratégia implícita ou explícita que incorpora elementos de persuasão e requer habilidade de relacionamento e diálogo. Por isto, a convicção de que a agenda das corporações requer, além da rentabilidade econômica, construir viabilidade política, o que inclui desenvolver um pensamento sistêmico, mudar a forma de conversações na organização e adotar uma gestão que contemple os processos políticos. Matos enfatiza: “é preciso tornar-se mais proativos, com a junção da comunicação interna com a externa para ser mais eficaz”. A gerência política depende de cinco tipos de conversações: 1) para a configuração de situações, aprofundando a compreensão de relações causais, antecipando futuros; 2) para o desenho de estratégias e ações. 3) para a análise de viabilidade política de estratégias; 4) para a gerência de cooperação e do conflito; e 5) para a mobilização para a mudança, com compromisso e coordenação. “Aprendemos muito sobre inovações, tecnologia e recursos humanos, mas não sobre políticas. E é isto que vamos mostrar no seminário”, orienta ele.

A noção de que comunicação deve ser fator de garantia de participação, de contemplação de opiniões diversas, as quais, conversadas, levam ao mesmo caminho num empenho coletivo, permeia toda a visão de relações governamentais proposta, com agendas que atraiam o povo, construam alianças para viabilizar processos. “Afinal, comunicação é interação, não é transmitir informação”, arremata, referindo-se também aos indicadores relacionados à performance da organização e incorporados à sua estratégia global, como relações com o governo, imagem na comunidade e estabilidade política.

REPERCUSSÃO – A jornalista Angélica Consiglia, sócia-diretora da Planin, já está ambientada neste segmento. Fazendo parte de um grupo mundial de RP, a WorldCom, desenvolve atividades contínuas com o Governo para clientes, que vão de construtoras a empresas de telecomunicações. Isto justifica seu máximo interesse no Comitê e no Programa lançados, exaltando a idéia da instituição do espaço de intercâmbios como maior fomento de um tema estratégico. A gerente de Comunicação da Klabin, Cristiana Brito, está inserida num panorama semelhante, afinal sua empresa está em mais de 50 cidades em oito estados distintos, em ambientes rurais e urbanos de diferente desenvolvimento. Sua presença no encontro está focada na aprendizagem sobre a sistematização destes pontos de contato, capacitando sua equipe e permitindo disseminação do posicionamento da organização para determinadas práticas.

Com Inês Correa, proprietária da agência Momentum, não é diferente. O conhecimento adquirido no evento já vai ser útil em seu trabalho com governos municipais, e ela sugere que no futuro o grupo contemple também representantes de órgãos públicos para melhor entendimento dos fluxos de comunicação e parceria entre as partes. O relações públicas do Conselho Regional de Enfermagem, Marcus Vinícius Bonfim, comenta que em algumas instâncias é normal a existência de um canal sistemático e formal entre Governo e sociedade civil organizada, como no caso das entidades de profissões, ainda mais no setor da saúde, com acompanhamento e consulta sobre legislações. Todavia, as novidades de enfoque do palestrante Luis Matos e do programa da ABERJE o fizeram ver que existe conhecimento pra acrescer. “É uma série de ações relevantes que trazem uma postura proativa com maior profundidade na agenda social da empresa, surgindo um olhar diferente em relação ao Governo e no papel das empresas, que podem ficar como intermediadores das comunidades”, analisa. Neste lançamento, estiveram presentes representantes de empresas como Gerdau, Petrobras, Votorantim, Unilever, Basf, Scania, Kraft Foods, Libbs Farmacêutica, Cargill, IBM, Suzano e Santander, entre várias outras, e órgãos como a Câmara dos Deputados e a Associação Brasileira de Relações Públicas. O Comitê de Relações Governamentais vai marcar o próximo encontro no mês de setembro. Interessados podem obter informações pelo email emily@aberje.com.br ou no 11-3662-3990.


Fonte: Por Rodrigo Cogo – Gerenciador do portal Mundo das Relações Públicas
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