Sustentabilidade precisa ser eixo estratégico

Disseminar as melhores práticas, levantando tendências do mercado e oferecendo material teórico para implementar discussões, e ao mesmo tempo em aumentar a rede de relacionamento dos participantes a partir de perspectivas diferenciadas de desenvolvimento de trabalhos. Esta é a proposta dos comitês criados pela ABERJE que atualmente reúne as Associações Brasileiras de Comunicação Empresarial, Branding e Comunicação Organizacional comprovada pela quinta reunião temática sobre Sustentabilidade realizada em outubro de 2008 na Casa do Saber em São Paulo/SP. Na ocasião, estiveram presentes 60 profissionais para ouvir as considerações de José Luciano Penido, diretor-presidente da Votorantim Celulose e Papel/VCP, e Tereza Cristina de Rozendo Pinto, gerente de Desenvolvimento Humano e Responsabilidade Social da Eletrobrás.

Na estrutura de governança da entidade, estão presentes os comitês como fóruns privilegiados de discussão direta entre profissionais das empresas associadas. O acesso é gratuito e já estão também em andamento grupos de Comunicação Interna, Comunicação Digital, Memória Empresarial, Relações Governamentais e Desenvolvimento Profissional. Os encontros sobre sustentabilidade, em específico, coordenados pelo consultor e publisher da revista Idéia Sócio-Ambiental, jornalista Ricardo Voltolini, sempre contam com um executivo responsável pela área e um presidente de organização com estrutura modelar para apresentação das experiências. “Criar uma massa crítica sobre o tema e estabelecer uma memória na área estão entre nossas propostas”, reitera Voltolini.

O setor de papel e celulose no Brasil comporta 220 empresas em 17 estados e 450 municípios, com uma área plantada de 1,7 milhão de hectares (destes, 75% é de eucalipto) e uma área de florestas nativas preservadas de 2,8 milhões de hectares. Esta indústria exporta US$ 4,7 bilhões por ano e gera um número de empregos diretos na ordem de 110 mil, o que a posiciona como a 6º maior em celulose de todos os tipos e a 1º em eucalipto no ranking mundial. José Luciano Penido, que deu início aos trabalhos, é diretor-presidente da Votorantim Celulose e Papel desde 2004. Formado em Engenharia de Minas pela Universidade Federal de Minas Gerais, tem 30 anos de experiência no setor industrial, com passagem pela Samarco Mineração. Possui ampla experiência em gestão empresarial e políticas de recursos humanos, além de ser um grande entusiasta das práticas de responsabilidade social e sustentabilidade no Brasil. É membro do conselho do Instituto Ethos, da Fundação Dom Cabral e do CEATS-USP. A VCP emprega mais de 2700 pessoas e produz um volume total superior a 1.500 toneladas.

Penido explica o que acabou se tornando a principal lição da manhã: é fundamental o CEO colocar a sustentabilidade no centro da estratégia de negócios da empresa, para ai sim criar valor econômico, ambiental e social, percebido por todos os públicos e ainda manter diálogo transparente e verdadeiro com vários interlocutores. Neste sentido, o aumento da abrangência de abordagem e importância dos stakeholders é evidente, saindo dos públicos primários tradicionais como funcionários, acionistas, fornecedores, Governo e imprensa e alcançando opositores e até públicos ilegítimos, que seriam os movimentos ou as figuras que não existem juridicamente e por vezes podem estar à margem da lei. “São ambientes e atores que influenciam o negócio e tornam mais complexo e dinâmico”, destaca ele, justificando a colocação do tema no eixo da estratégia.

Reconhecendo que há cerca de 50 anos a indústria de papel era muito poluente, de outro lado aponta que hoje ela trabalha com uma das matérias-primas mais renováveis. Minerais, por exemplo, tem ciclo de reposição de centenas de milhões de anos, diferente das florestas plantadas com ciclo de colheita de sete anos e possibilidade de convivência com outras culturas no período, e mesmo criação de gado. Assim, as denúncias de “deserto verde” pela redução da diversidade de plantio são rebatidas com muita informação, atendendo as especificidades dos agentes, como as lideranças religiosas, os produtores rurais, os governos e a imprensa, tendo como argumentos, entre outros, a proteção do solo e das nascentes e o seqüestro de carbono com amenização do clima. Daí que se vê a relevância da comunicação dirigida e especializada. A sustentabilidade na VCP está baseada no impacto frente a cinco elementos da natureza, nomeados como a água, o ar, a energia, a terra e as pessoas, que são balizadores de todos os processos industriais. A empresa é a melhor do mundo em utilização racional de água e desenvolve várias práticas internacionais, com diversas certificações, o que é ainda mais reconhecido pela posse de uma base florestal com 145 mil hectares de áreas preservadas nos estados do Mato Grosso do Sul e de São Paulo

Penido exemplificou a ação social da empresa, entre outros projetos, pelo Corredor Ecológico do Vale do Paraíba, uma proposta de interligação de áreas dos remanescentes florestais da Mata Atlântica em São Paulo, permitindo o trânsito de animais e espécies vegetais e possibilitando que a vida natural em uma determinada região não se isole em áreas restritas. O método permite a conservação dos recursos hídricos e do solo e contribui para o equilíbrio do clima e da paisagem. A participação da empresa como apoiadora parte da constatação de que o protagonismo precisa ser da sociedade, e não sob o viés do criador da idéia ou dos patrocinadores, e assim obter o engajamento no nível necessário. Reflorestar 150 mil hectares em 10 anos é o desafio do projeto, sendo 30 mil hectares destinados a plantio de eucaliptos, por meio de ações integradas às dinâmicas sociais locais, que promovam o desenvolvimento econômico e social, com valorização da cultura regional. Na ocasião, o diretor-geral da ABERJE, Paulo Nassar, já anunciou a adesão da entidade no Corredor, mobilizando os associados do Capítulo Vale do Paraíba em evento até o final do ano.

Na finalização do depoimento, Penido explicou o panorama da inserção da responsabilidade social empresarial na VCP, sempre iniciada pela liderança do CEO, mas com níveis gerenciais alinhados aos conceitos de Sustentabilidade, com amplo envolvimento do grupo de Comunicação, inclusive em treinamento na Fundação Dom Cabral, com permanente discussão nos ciclos de planejamento estratégico. São auto-aplicados os Indicadores Ethos e realizados relatórios no modelo da Global Reporting Initiative, além de ter sido implantado um Código de Conduta Votorantim. O presidente ainda relata a criação de Gerência Geral de Sustentabilidade, de um Comitê de Sustentabilidade regulador e de Ouvidoria do Código de Conduta, afora a inserção da empresa nos índices ISE Bovespa e Dow Jones Sustainability Index. “Uma ação sustentável na empresa não nasce sem a presença do CEO”, insiste ele, não havendo dissociação entre estratégia, planos e linguagem. Para tanto, sugere uma gestão integrada de recursos humanos, em que todos sejam e sintam-se responsáveis por todos os setores e causas.

ESTATAL - Os desafios de implantar e ampliar a consciência sobre sustentabilidade numa empresa pública formada por várias organizações da área de energia, entre petróleo, gás, biomassa, ar, estação nuclear, carvão e hidroelétrica, foram a base da palestra da gerente do Departamento de Desenvolvimento Humano e Responsabilidade Social da Eletrobrás, Tereza Cristina de Rozendo Pinto. Formada em Administração de Empresas pela UFRJ, com MBA em Gestão de Recursos humanos pela FGV do Rio de Janeiro, além de Especialização em Gestão Responsável para a Sustentabilidade pela Fundação Dom Cabral, ela precisa gerir a dinâmica e a diferença entre dois eixos de negócio: uma empresa holding de capital aberto, voltada para o desenvolvimento do setor elétrico brasileiro (a Eletrobrás S.A.) e uma empresa implementadora e gestora de programas sociais, setoriais e comercialização de energia elétrica, por delegação de seu acionista majoritário - o Governo Federal (o sistema Eletrobrás, com Furnas, Eletronorte, Eletrosul, Chesf, Itaipú, entre outras), envolvendo quase 27 mil empregados, afora um processo de internacionalização que já atinge 17 países, como Nigéria, Nicarágua, China, Colômbia, Angola e Sri Lanka.

O tema responsabilidade social e sustentabilidade está marcado desde a missão e visão da empresa. Tereza assinala, porém, que só em 2006 foi instituído o Comitê da área, também motivado pela inserção da empresa no índice ISE da Bovespa, com funções como atender os requisitos do Pacto Global, ISE Bovespa e Dow Jones, produzir Relatórios Socioambientais seguindo padrões reconhecidos pelo mercado, coordenar a implementação de Sistemas de Gestão Sócio-ambientais e educar para Sustentabilidade, com elaboração sistemática de planos de metas e melhorias. Como resultados, ela já aponta a adesão ao Pacto Global e alinhamento de práticas, a elaboração do primeiro Relatório Socioambiental do Sistema Eletrobrás Modelo ANEEL, a implantação do Programa de Coleta Seletiva e um programa de sensibilização do corpo gerencial, como força propulsora da disseminação. Foi ainda articulado um programa de eqüidade de gênero, com a proposta de promover a igualdade de oportunidades entre homens e mulheres nas organizações, por meio do desenvolvimento de novas concepções e práticas da gestão de pessoas e da cultura organizacional. “As áreas de RH resistem ao mapeamento das questões de diversidade como raça, orientação sexual, gênero”, reconhece ela. Recentemente, o deslocamento do tema para uma ligação direta com a presidência formalizou o enfoque de trabalho e está abrindo canais para disseminação da cultura na organização, alinhando com os esforços já empreendidos por algumas unidades isoladas. Mesmo a publicidade da Eletrobras vai começar a enfocar os programas sociais em operação, como forma de mostrar à sociedade o nível de engajamento e compartilhamento desejados.

A gerente relatou vários projetos sociais que o sistema desenvolve, todos centrados em educação e capacitação, igualdade racial, inclusão social, inclusão digital e geração de trabalho e renda. Um dos exemplos é o trabalho feito com o Movimento de Atingidos por Barragens/MAB, que já mobilizou 15 mil pessoas, afora as ações com quilombolas e com ciganos, repletas de desafios. Uma pesquisa de impactos sócio-econômicos e ambientais nas comunidades contempladas pelo Programa Luz para Todos concluiu pela operacionalização de projetos auto-sustentáveis de produção rural, dado que a energia vinha servindo exclusivamente para fins domésticos. Os Centros Comunitários de Produção, baseados em leite, funcionam há quatro anos e são modelos para replicação do enfoque cooperativado e com alta produtividade. “É preciso integração interna grande para levar adiante projetos de sustentabilidade. Antes de tudo, é um processo educacional, antes de levar pra fora”, sugere. Na área de comunicação, está sendo buscada agora a unificação dos profissionais de todas as empresas, orientando para uma plena parceria com áreas internas e pensando numa estratégia de holding. “O endomarketing é fundamental nesse processo, que é complexo e árduo, mas muito gratificante”, finaliza.


Fonte: Por Rodrigo Cogo - Gerenciador do portal Mundo das Relações Públicas
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