As novas perspectivas da Responsabilidade socioambiental empresarial

Apesar das desconfianças e resistências que desperta, ainda, em grande número de indivíduos e organizações da sociedade civil e do Estado, a responsabilidade socioambiental empresarial no Brasil não pode ser caracterizada como mero oportunismo e/ou modismo, por mais que exemplos nessas dimensões não faltem em terras tupiniquins. Por outro lado, parece bastante inconsistente imaginar que o velho assistencialismo e a histórica filantropia, expressão que no caso brasileiro contemporâneo assume conotação pejorativa, sejam traços do passado da intervenção socioambiental empresarial. Entre otimistas e pessimistas, desconfiados e esperançosos, crédulos e descrentes, residem os caminhos tortuosos da presença construtiva das empresas no espaço público brasileiro, uma meta muito mais complexa e arrojada do que o mero fazer bem-feito em ações socioambientais.

Algumas iniciativas brasileiras de organização e articulação dos atores de mercado, com vistas à modernização do papel que exercem nos investimentos socioambientais e também na condução moralmente correta de seus empreendimentos, já têm ultrapassado as fronteiras nacionais e exercido considerável influência na construção de iniciativas semelhantes em outros países da América Latina. Mas os avanços dessas iniciativas nem sempre são difundidos de forma homogênea e consistente entre os atores econômicos das regiões em que operam, sobretudo nas grandes corporações.

Prova disso é que, apesar de afirmarem anteriormente o caráter estratégico de seus investimentos em responsabilidade social, grandes empresas brasileiras, inclusive com operações globais e que, teoricamente, seriam exemplos de boas práticas gerenciais, cortaram parte considerável dos recursos destinados a ações sociais e culturais com a recente crise.

Para o pensamento mercadocêntrico, ensimesmado no ilusório mundo do tecnicismo gerencial, tanto esses exemplos quanto a própria causa maior desse corte de investimentos, a atual crise financeira global, seriam decorrentes da promoção incompleta e mal estruturada de boas práticas de ética nos negócios. Nessa perspectiva, o remédio seria mais do mesmo e, como se tudo não dependesse apenas de vontade, conhecimento gerencial e decisão moral individual por parte dos altos executivos, bastaria apenas retomar a caminhada, com mais rigor, precisão e compromisso moral.

Já para aqueles que veem com desconfiança as iniciativas operadas pelos atores de mercado, tudo seria sinal da incoerência e impossibilidade estrutural do próprio capitalismo em reprimir os excessos de sua liberalidade e se autorregular, de forma a contribuir para o tão defendido – discursivamente, mas tão pouco materializado – desenvolvimento sustentável. Esse tipo de reflexão e de discurso, por motivos óbvios, tem muito menos ressonância e repercussão nos ambientes empresariais.

Contraposto a ele, muitas vezes, surgem argumentos simplórios e destituídos de qualquer fundamento histórico, como afirmar que o capitalismo é o guardião das liberdades civis e dos princípios democráticos das sociedades. Não só a história recente, mas o passado das iniciativas de livre mercado é rico em exemplos de convivência harmoniosa e reciprocamente impulsionada entre liberdade econômica e restrição das liberdades civis (direitos negativos), para não falar dos problemas no campo dos direitos positivos (sociais, culturais, ambientais). Não só a China, mas o florescente capitalismo monopolista iraniano são alguns dos exemplos concretos que se opõem a esse delírio ideológico, mas que soa como sinfonia nos ouvidos das tribos gerenciais e empresariais.

O que parece estar em xeque com toda a trajetória inconsistente do investimento socioambiental empresarial no Brasil, bem como com os abalos estruturais do capitalismo contemporâneo, é a própria centralidade dos mercados como instância autônoma, independente e virtuosa de organização das sociedades. Ressaltar os fundamentos sociais e culturais de ação e racionalidade dos atores que operam nos mercados não deve significar, em oposição, centralizar os esforços, as atenções e as esperanças apenas na esfera pública, na qual gravitam as organizações da sociedade civil, e/ou na esfera do Estado.

Se a visão mercadocêntrica padece de incoerência frente à realidade, substituí-la pela centralidade das outras duas esferas também levou, tanto no passado quanto no presente, a utopias emancipatórias muito belas quando vistas de longe (ou estruturalmente), mas bastante horripilantes quando enxergadas de perto. Além disso, esse tipo de lógica bipolar pode, por exemplo, voltar as atenções para a organização da sociedade civil e seus projetos rumo ao desenvolvimento sustentável, deixando que os podres poderes continuem bem sólidos e sendo exercidos confortavelmente pelos doces bárbaros do mercado e do Estado.

Uma visão para além de lugares comuns e simplismos seria capaz de promover a crítica tanto dos atores de mercado quanto da sociedade civil, que exibe, muitas vezes, grupos mais preocupados com sua organização do que com sua legitimidade, e do próprio Estado, capturado por sua lógica de controle e onipresença regulatória. Nessa dimensão, que considera cada uma dessas esferas (mercado, sociedade civil e Estado), mas não se circunscreve a nenhuma delas, a responsabilidade socioambiental empresarial pode ser entendida simultaneamente, e não dicotomicamente, como resultante dos encontros e desencontros entre virtudes morais (ou não) dos executivos, pressões e lutas da sociedade civil (legitimamente ou não) organizada e regulação e políticas públicas (eficientes ou não) do Estado.

Para os ainda resistentes a perceber que nem só de boas intenções, bem como nem só de malévolos interesses, derivam os investimentos socioambientais empresariais, cabe acessar as recentes pesquisas sobre inovação ambiental em mercados das economias centrais, que demonstram que mecanismos de comando e controle, típicos da ação dos governos, podem se combinar virtuosamente com mecanismos de mercado, característicos da dinâmica empresarial, e com movimentos de regulação social advindos de ONGs e comunidades locais. No entanto, é importante atentar para o fato de que essas dinâmicas, ao contrário do que outra forma de pensamento também simplista sempre insiste em conceber, não são apenas de parceria e colaboração entre os atores dessas três esferas, mas também de conflitos, lutas e resistências que se materializam não dicotomicamente, mas muitas vezes simultaneamente dentro das mesmas parcerias e disputas.

Reconhecendo esse cenário e partindo dessa perspectiva, uma nova fase se apresentaria para os realmente interessados em promover a responsabilidade empresarial: a presença no espaço público e a contribuição estrutural para a garantia de direitos e/ou expansão da cidadania socioambiental. Nessa seara, as possibilidades são muitas, mas também os riscos, visto que, apesar do discurso empresarial oficial negar qualquer dimensão política das decisões tomadas no âmbito dos negócios, como se fossem sempre meras decisões técnicas, os interesses empresariais sabem continuamente se organizar e fazer lobby para suas causas, muitas vezes de forma nada transparente e democrática.

Além disso, seria necessário ir além de meros investimentos socioambientais em realidades específicas, feitos, principalmente, para sanar problemas gerados pela ausência das políticas governamentais e sob o discurso implícito ou explícito de oposição a um Estado caracterizado como omisso e incompetente, como se materializam muitas das ações empresariais no Brasil. O desafio seria contribuir mais decisivamente para a ampliação e garantia dos direitos socioambientais, bem como para a construção de uma esfera pública mais plural e democrática no País, sem deslegitimar o Estado e a sociedade civil, como a visão mercadocêntrica acaba incorrendo.

Controle de corrupção e transparência institucional nas relações com atores do Estado e da sociedade civil, participação de forma efetivamente democrática em conselhos e comitês gestores de políticas públicas e investimentos em lutas ampliadas por direitos (e não só ações socioambientais específicas) seriam algumas das frentes de atuação que carregam novas possibilidades para a responsabilidade socioambiental das empresas no Brasil. Mas essa caminhada não encontrará apenas sorrisos e abraços, pois a desconfiança, muitas vezes justificada, impera entre muitas ONGs legítimas e nos aparatos governamentais.

Isso, no entanto, não pode servir de desculpa para o distanciamento das responsabilidades empresariais frente à esfera pública. Se os negócios são feitos de risco e ousadia, como gestores e empresários adoram sempre destacar, por que não ser ousado e arriscado em direção à democracia socioambiental? A fuga desse tipo de responsabilidade não seria apenas sinal de covardia, mas também de que os interesses e investimentos empresariais não são tão positivos para a sociedade quanto afirmam ser.


Fonte: Por Armindo dos Santos de Sousa Teodósio - professor do Programa de Pós-Graduação em Administração da PUC Minas, in www.nosdacomunicacao.com
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