Novas tecnologias, velocidade e poder

Na primeira semana de junho, a Federação do Comércio do Estado de São Paulo (Fecomércio) foi palco do primeiro ‘UnoMarketing - Comunicação Consciente: Feira e Seminário Internacional de Marketing Sustentável’. Dividido em um seminário de dois dias e uma feira de negócios, ambos com viés internacional, o encontro tem por objetivo auxiliar no desenvolvimento do despertar para a consciência socioambiental entre fornecedores, clientes e público consumidor de comunicação e marketing.

Na quarta-feira, dia 3, uma apresentação inspiradora foi realizada por Abel Reis, mestre em engenharia de sistemas pela Coppe/UFRJ e COO da Agência Click. Coube a ele o desafio de falar sobre a era da transparência, as implicações, riscos e oportunidades que se oferecem em um clique; software ou hardware, o que é mais importante; o jovem neste contexto, o poder pela tecnologia e a busca por estilo, o que é opinião e o que é verdade, a questão da cybertechnology, a internet grátis e a computação nas nuvens: o futuro. E, no contexto, a Geração Y e Barack Obama. Participaram também deste painel Maria Lúcia Antonia - representando João Ciaco, da Fiat; Lia Diskin, da Associação Palas Athena; Felipe Soutello, da Fundação Prefeito Faria Lima (Cepam) e, como mediador, o jornalista Nirlando Beirão.

Progresso, cultura x natureza e o consumo como entretenimento
Abel Reis levou a plateia de cerca de 150 pessoas ao século XIX. Para ele, existem questões geradas lá que ainda marcam os séculos XX e XXI. “Um dos primeiros legados é a ideia de progresso. Foi quando surgiu a fantástica explosão intelectual, com Nietzsche, Karl Marx, a criação da tabela periódica de Mendeleev, além da consolidação da colonização europeia na América e na Ásia. A humanidade se voltou para as civilizações destas novas terras com olhar científico e começou a fazer as feiras para trocas sobre o que seria o futuro em termos ideológicos – de que seríamos um projeto de civilização em evolução”. Reis também destacou a divisão entre cultura e natureza para a ideia de progresso. “A partir do momento em que a ciência dissocia-se da natureza e há uma compreensão de que o homem cria objetos e gera ações na natureza, visando o modo de conforto que tem, isso passa a fazer toda a diferença que vai nos impactar em termos de sustentabilidade”, salienta. Reis chegou a ler parte do capítulo 7 de ‘O Capital’, de Marx, no qual estes dois territórios ontológicos são contrapostos. “Marx era um homem do seu tempo e expressa bem a diferença dos domínios em que cabe ao homem o domínio das forças naturais para seu conforto".

O terceiro legado do século XIX, para Reis, são as práticas de consumo como entretenimento. E ele citou as galerias comerciais como a Vittorio Emanuele, de Milão, que data de 1821. “Trata-se de uma experiência de exposição cênica das mercadorias, de um modo de apresentação, já com iluminação elétrica no mercado para criar relações entre os consumidores e as commodities, ou seja, as mercadorias. É quando surge a ideia de marca e, como decorrência, as relações complexas entre consumidores e mercadorias e a complexidade da escolha como um novo componente. Começa a haver variedade de opções, levando as pessoas a se perguntarem – qual delas me seduz, qual delas eu escolherei?”, complementou.

Abel Reis foi além ao citar um quarto ponto deixado como legado do século XIX: o da descoberta do ser humano como demasiadamente humano, “resultado dos estudos de Freud. As condições sócio-econômicas influenciam nossas questões psicológicas. A questão de estarmos a sós com nossas circunstâncias.”

Século XX – heranças levadas às últimas consequências
Contextualizadas todas as questões norteadoras do século XIX, Abel Reis entrou no século XX, o tempo em que os conceitos citados foram levados ao extremo. Começou pela fabricação das sensibilidades, como preferência, gosto, memória – no mundo do entretenimento – que tornou a vida difícil para o cidadão. “Daí surgiu o profissional de marketing, o comunicador, que serve para facilitar a vida de quem vende e ajudar a quem compra a escolher”, disse.

A mudança de paradigma, neste caso, de uma economia que sai do passivo anonimato das massas para os ‘mercados de 1’: “De audiências pacientes, seremos pequenas audiências de conversações, com consumidores exigentes e cada vez mais participativos”, disse. “Estamos vivendo hoje o capitalismo informacional e nossa resposta está no software”. Para ele, “o hardware é um acidente de percurso neste universo, parecido com a energia elétrica”.

O reinado do software
A crença de Abel Reis, que vem de tecnologia, no poder do software é total: “O software é muito mais do que um conjunto de instruções que comandam um hardware. É uma poderosa ideia intelectual, nascida no início do século XX, entendida como objeto cultural.” Nesta concepção, Reis penetrou em todas as práticas do homem – cultural, política, relacional etc. – e para melhor. “As pesquisas, o comércio, os relacionamentos – a vivência da memória afetiva; nunca tudo isso será o mesmo sem o software. O caso do Twitter é emblemático – há pessoas que contam com vários seguidores, esperando frases de 140 caracteres que os iluminem. Eu achei que isso só seria possível se dentro de um contexto de seita, mas há marcas que tem mais de mil seguidores – como Starbucks, por exemplo... então, está além disso”, vaticinou.

“Estas ideias-chaves de gramática de uso, tempo real e erro – do software (atributos) nos trouxe novas formas de sociabilidade e recursos de cognição, como novas formas de ser e de pensar. Mas por que esta questão é tão importante hoje?”, ele pergunta. “Porque elas nos educam, sempre presumem usabilidade imaterial, porque você sabe que está lá, mas não vê! Eles são além do que estão nas suas mãos e ao alcance dos seus olhos”.

Redes sociais
As gramáticas de uso também estão nas redes sociais, segundo Reis, porque elas impõem uma forma de uso, e estão invadindo nossas vidas, impondo uma forma de relacionamento. Para ele, este é um dos passos para que, em breve, nossas vidas sejam invadidas com o convívio diário com seres eletrônicos.

Abel Reis sabe que existem pessoas que veem no software um viés de agenciamento da vida, uma espécie de dromocracia – um império da velocidade sobre a democracia. “Eu acho que tudo depende da lógica de quem o usa. Meu sentimento é o de que dromocrática é a grade de tevê, que nos foi imposta desde que criada – e ela está indo para o espaço com a democracia estabelecida pelo livre arbítrio que existe nas redes sociais. O tempo real do software nos dá a possibilidade de ser anarquista e ter o poder na mão, ao contrário do que as comunicações de massa nos impunham até então. E isso se amplia às práticas políticas, mas aí este é outro assunto”.

A vida em estado beta-constante
E o erro? “O software é fabricado por humanos e humanos erram”. Graças aos “bugs” que irritam milhões de pessoas, a internet e o “opensource” – o processo colaborativo de melhoria de softwares entre programadores – trouxeram o termo de estado precário do software para o software que vale para nossa vida, o betapermanente – como o ser humano que aprende todos os dias. O software também é um programa em constante aperfeiçoamento. Isso nos torna mais tolerantes, mais flexíveis, mais adaptáveis e nos dá mais oportunidade de aprendizado”, explicou.

Para Reis, as redes sociais têm uma correlação com suas práticas muito humanas: o nomadismo e neo-tribalismo: “Somos nômades e nossa nova bússola é o celular. Quanto ao neo-tribalismo, estamos sempre buscando uma tribo e o Twitter e as novas redes estão demonstrando a necessidade latente do ser humano de querer se agregar com novos grupos, inclusive com gente que sequer se conhece, mas que se acha inserido dentro de uma comunidade por afinidades, porque o ser humano é propenso a se agrupar”.

Economia de mercados de 1
“A gente vai viver uma era em que vamos nos responsabilizar pelas nossas opções pessoais de consumo, políticas etc. Eu firmemente acredito que cada consumidor influenciará os produtos “on demand”. O cidadão vai influenciar as políticas de governo, inclusive, em tempo real. Eu acredito que – espero definitivamente – a ideia positiva de lá atrás seja desconstruída e que haja muitos progressos e sejam todos diferentes – que haja uma diluição da fronteira hostil entre cultura e natureza. Espero que nos tornemos mais humildes e resignados com a condição humana. Que o consumo seja mais simples e responsável sem deixar de ser divertido e as marcas sejam éticas, tendo um papel a desempenhar, sendo referências e sem flerte à ‘adultescência’ na comunicação publicitária, Se tudo isso acontecer, a gente vai ser mais feliz e menos angustiado. E aí, o século XIX vai ficar mais distante”.

O debate
O debate que seguiu à apresentação, Lia Diskin da Associação Palas Athena, não deixou de elogiar as questões levantadas por Reis, mas o chamou para a realidade e para os dias de hoje. De acordo com Lia, é preciso discutir como trabalhar os conceitos e as práticas de fazer a sociedade por a mão na massa aqui e agora. “Não adianta falar de passado e sonhos de futuro, mas dos problemas sérios das várias terras que temos – porque a China está vivendo em seu século, o Brasil, em outro, os americanos em outro. São várias Terras dentro de uma só, porque são várias realidades, com escolhas diferentes. E para cada uma destas Terras, as soluções serão diferentes em termos de sustentabilidade, de mensagens publicitárias”, disse.

Lia citou o 23 de setembro do ano passado, data da divulgação de que o mundo já está consumindo acima do que os recursos naturais disponíveis, como divisor de águas para a hora de sermos urgentes em ações práticas e que um evento como este era uma iniciativa para tratarmos disso.

A sua fala, seguiu-se a de Felipe Soutello, do Cepam, que se apresentou mais pessimista em relação às tecnologias. “Acho que os instrumentos, todos colaborativos, exigem uma capacitação preliminar para que o sujeito saiba interpretar o que é verdade e o que não é. Preocupa-me o fato de as pessoas abdicarem de uma visão mais holística que os veículos de comunicação permitiam para uma visão eventualmente mais vazia e manipulada. O desinteresse sobre ações coletivas tem sido cada vez maior. E há argumentos diferentes para uma moldura de valores que diferem de sociedades para sociedades. Se o acesso à tecnologias não é garantido a um número maior de cidadãos para que, igualmente, eles possam ter condição de participação – sobretudo no Brasil – em que não temos uma banda larga regular para transmitir para todos os municípios de São Paulo, o mais rico estado do País, imagina, então o nível de exclusão dos demais e as consequências disso em termos de participação em outras esferas”.

Ao falar pela Fiat, Maria Lúcia Antonia fez uma brincadeira: “Você está muito Platão, Felipe, eu estou como Abel, mais para Aristóteles”. Tendo baseado sua fala na percepção do tempo, ela reforçou seu otimismo com relação à democracia trazida com a tecnologia, “porque auxilia a pessoa a decidir sobre a definição e escolha sobre sua percepção de tempo, poder e tudo o mais que ela queira fazer: ler, comunicar etc.”, disse.

Maria Lúcia também lembrou datas e fatos históricos. Falou sobre o quanto o terrorismo e as tecnologias fizeram as pessoas se questionarem a respeito da percepção do tempo. “A crise mundial financeira, mais impactante na indústria automobilística a qual represento, nos convida para a urgência em relação às soluções que sejam corretas no sentido de diminuir a poluição, que não gerem mais tráfego, que não façam cidades pararem. A ética é um desafio diário para a Fiat, porque precisamos saber ser verdadeiros e não é uma coisa fácil, mas estamos continuamente discutindo isso e isso à medida que somos também reflexo dos rápidos acontecimentos”.

Para finalizar o painel, Abel Reis preferiu jogar para a plateia pensar: “Hoje somos 62 milhões de internautas. Usamos a internet no ambiente de trabalho e em outros espaços públicos, sejam lan-houses, escolas, tele-centros etc., independentemente de termos um Estado forte ou com ações falidas em termos de políticas públicas de informatização nas escolas. Ou seja, as pessoas se incluíram por si mesmas, elas fizeram isso na prática. Isso é um dado importante. Eu firmemente acho que a internet é um instrumento de letramento e interação – que envolve expressão, articulação diferentemente que outras mídias em que a postura de interação entre o meio e o leitor é praticamente nula, é de espectadora. Então, neste sentido, os meios digitais são positivos, a meu ver. Isso conta a favor. Se alguém diz que o YouTube é a lixeira do Brasil – ao mesmo tempo, põe a nu a nossa sociedade, reflete o que ela é, sem medo de ser feliz. O que ela é reflete o que o governo faz por ela, mas o que ela posta é sua expressão de si mesma e revela sua forma de ser. E isso – por si só – é um sintoma, um ingrediente fantástico para se estudar ou se olhar sob uma ótica positiva, de um alerta da própria sociedade, de se mostrar. Há um outro exemplo – o da Associação de Assistência à Criança Deficiente (AACD). Se ela não tem como abrir fisicamente locais de assistência, virtualmente, qualquer pessoa pode ter acesso a ela e fazer sua contribuição – aumentando o trabalho que a entidade pode fazer junto à sociedade, aumentando a participação social de responsabilidade. Isso só foi possível por causa da internet“.


Fonte: Por Vany Laubé, in www.nosdacomunicacao.com
0