Pular para o conteúdo principal

Humildade como lição de liderança

Em 1990 eu tinha 36 anos quando fui nomeado diretor financeiro da Nokia. Era um desafio, não só por causa da minha juventude, mas porque era uma época turbulenta na história da empresa. A Nokia, que então era muito grande, estava em uma situação financeira delicada e fechávamos cada mês nos perguntando se seríamos capazes de afrontar os salários do mês seguinte.

Em retrospectiva, percebo como eu era inexperiente naquela época. Tinha trabalhado nas áreas jurídicas e de estratégia, nunca no setor financeiro. Nos meses posteriores à minha nomeação como diretor financeiro fiz muitas viagens, para Zurich, Frankfurt, Tóquio, Londres, tentando conseguir dinheiro de banqueiros que perdiam a fé em nós à medida que nossos lucros despencavam. Nessas viagens, percebi como a situação em que estávamos era difícil e como eu estava só. Essa experiência me transformou e, mesmo quando melhoramos financeiramente, continuei respeitando as lições que eu tinha aprendido no campo pessoal.

Tinha aprendido que a humildade é uma qualidade vital em um líder, como também nas empresas. Se quiser continuar prosperando, a Nokia deve se abrir, ela deve ter o tipo de humildade que a impulsione a ouvir o cliente e buscar idéias fora da empresa. Deve ser humilde diante da complexidade. Mais ainda nos tempos atuais, quando a convergência da tecnologia móvel e a internet geram incertezas, a Nokia não pode confiar tanto em si mesma como para acreditar que suas previsões são as melhores. Em vez disso, é preciso perceber as mudanças à medida que elas acontecem e ser o mais rápido possível para reagir. Em uma equipe gerencial, a capacidade de resposta deriva da diversidade: os gerentes devem aceitar humildemente que precisam enriquecer suas opiniões com as de outros.

Ser humilde não significa ser calmo ou carecer de coragem para dizer o que pensamos. Coragem e humildade são complementares, mais do que contraditórios. As pessoas que atravessaram maus momentos podem ter mais coragem em situações difíceis. Sabem que as coisas não são sempre fáceis.

As exigências sobre os líderes corporativos são tão grandes que muitos presidentes executivos chegam à conclusão de que, se não se comprometem 101%, não vão conseguir. Eu percebi isso em meados dos anos 90, quando trabalhei no exterior dois anos. Tomei a decisão de que essa é a vida que vou levar: servir à empresa e dar tudo de mim. Quando tomamos essa decisão, crescemos como pessoas e ganhamos a coragem para discutir com todos os participantes em uma reunião, resistir à tentação de nos conformar com o benchmarking e pensar diferente; permite, ou melhor, nos impulsiona, a dizer que as coisas mudaram e que nós também precisamos mudar. Ao mesmo tempo, aprendemos a apreciar o quanto dependemos dos demais.

Quando fui nomeado para chefiar uma equipe faz 19 anos, tive de aceitar que eu não era mais um profissional solitário fazendo meu próprio trabalho. Eu tinha que liderar de forma que outras pessoas pudessem fazer o trabalho também e não somente eu, ou seja, fossem capazes de me substituir. Cada ano a lição se intensificou. Em janeiro de 2007, a Nokia superou os 100.000 funcionários e há muito pouco que eu possa fazer sozinho, mas posso fazer muito com essa equipe.


Fonte: Por Olli-Pekka Kallasvuo, Harvard Business Review 2007, in www.hsm.com.br

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

H2OH! - um produto desacreditado que virou sucesso

O executivo carioca Carlos Ricardo, diretor de marketing da divisão Elma Chips da Pepsico, a gigante americana do setor de alimentos e bebidas, é hoje visto como uma estrela em ascensão no mundo do marketing. Ele é o principal responsável pela criação e pelo lançamento de um produto que movimentou, de forma surpreendente, o mercado de bebidas em 11 países. A princípio, pouca gente fora da Pepsi e da Ambev, empresas responsáveis por sua produção, colocava fé na H2OH!, bebida que fica a meio caminho entre a água com sabor e o refrigerante diet. Mas em apenas um ano a H2OH! conquistou 25% do mercado brasileiro de bebidas sem açúcar, deixando para trás marcas tradicionais, como Coca-Cola Light e Guaraná Antarctica Diet. Além dos números de vendas, a H2OH! praticamente deu origem a uma nova categoria de produto, na qual tem concorrentes como a Aquarius Fresh, da Coca-Cola, e que já é maior do que segmentos consagrados, como os de leites com sabores, bebidas à base de soja, chás gelados e su...

Omni aposta no marketing de rede

Nas tardes de domingo, em diferentes cidades do Brasil, milhares de pessoas vestem suas melhores roupas e se arrumam para ir às reuniões promovidas pela Omni International, empresa paulista que vende lojas virtuais. Recentemente, um desses encontros ocorreu num auditório no bairro de Pinheiros, na zona oeste de São Paulo. O local é imenso, com espaço para acomodar até 1 000 pessoas. Vitrais com cenas da vida de Jesus Cristo indicam que o prédio abriga um templo religioso. Mas, durante a reunião, o palco dos pregadores cede espaço a homens e mulheres que fazem parte da comunidade Omni -- gente que comprou e também vendeu os sites da empresa. Sorridentes e bem vestidos, eles contam suas histórias de sucesso e profetizam uma trajetória de enriquecimento para quem se empenhar. Um dos apresentadores anuncia que já comprou um automóvel Audi. O outro, um Porsche. "Vocês podem ser vencedores", diz um dos palestrantes. "Só precisam de uma oportunidade." As reuniões têm como ...

Construtora pega carona com o Gugu

Há cerca de um mês, o empresário carioca Augusto Martinez, dono do grupo imobiliário AGM, foi convidado para um jantar entre amigos num elegante apartamento da avenida Vieira Souto, em Ipanema, o endereço mais caro do Rio de Janeiro. A comida estava boa, a conversa agradável, mas durante toda a noite Martinez ficou intrigado com a estranha familiaridade com que era tratado por um dos garçons, que insistia em chamá-lo de Augusto. Vasculhou a memória tentando se lembrar de onde eles se conheciam. Nada. "O senhor não me conhece, não", disse o garçom quando perguntado. "Mas eu conheço bem o senhor. Não perco seus programas." Aos 49 anos de idade, freqüentador da elite de empresários cariocas e dono de quatro empresas que faturam 300 milhões de reais por ano, Martinez recentemente descobriu o que é ser uma pequena celebridade popular. Desde maio deste ano, ele ajuda a apresentar um quadro quinzenal no programa Domingo Legal, de Gugu Liberato, no SBT. Batizado de Construi...