Pular para o conteúdo principal

Spam, produtividade e ansiedade

Sou da época em que uma ligação telefônica para o Rio de Janeiro era solicitada à telefonista e demorava uma hora para ser completada. A única maneira de mandar textos para outra pessoa era via telex (50 caracteres por segundo). O fax não existia. Os computadores eram mainframes com 4 kilobytes de memória (hoje, falamos tranqüilamente em 4 gigas, isto é um milhão de vezes mais). O trabalho foi do papel e caneta para terminais de mainframes, depois para microcomputadores e, atualmente, para leitura e envio de e-mails. Era possível usar boa parte do tempo pensando a estratégia, formas de implementá-la sem ter a atenção desviada para pequenos problemas do dia-a-dia.

Os e-mails tiveram um efeito interessante sobre a produtividade e as relações pessoais nas empresas. Se por um lado o registro e a velocidade de resposta cresceram vertiginosamente, aumentando a produtividade, por outro, a quantidade de informações irrelevantes que sobem hoje à alta administração da empresa, desvia o foco dos executivos, que passam a reagir ao que é urgente e não ao que é importante.

Este círculo vicioso faz com que os problemas verdadeiramente relevantes não sejam adequadamente pensados e resolvidos, gerando uma sucessão de fatos urgentes, que necessitam de atenção, exatamente por que os problemas importantes não foram resolvidos. Os altos executivos, encarregados de pensar e implementar a estratégia da empresa, são submersos em uma avalanche de e-mails, traduzindo aspectos meramente operacionais.

Eles se comunicam por escrito, por e-mail, em uma linguagem pobre, em que aspectos carismáticos e emocionais da liderança não alcançam os demais colaboradores, tornando difícil implementar a estratégia definida. Some-se aos e-mails "urgentes" da empresa, dos clientes, dos fornecedores, uma quantidade de Spam's, que segundo levantamento da Barracuda podem atingir 90% dos e-mails recebidos. Os Spam geram a ansiedade de "liberar" a caixa postal.

Começa-se o dia com 150 e-mails na caixa postal e mais 150 chegam no correr do dia, duzentos e-mails para ler e eventualmente encaminhar ou responder, sendo que 270 são puro lixo. Não me lembro nos meus tempos de executivo do mercado financeiro de ter que responder a 30 cartas ou memorandos por dia.

A ansiedade de ver a caixa postal ir crescendo, do numero de e-mails não lidos crescendo ainda mais, de o dia acabar e ainda faltarem 30 e-mails para serem lidos, leva a ansiedade que tem como contrapartida a satisfação de ver a caixa postal vazia de e-mails não lidos. Daí a considerar que o trabalho é só ler, encaminhar e responder e-mails, é um pequeno passo.

Basta ver qual é a primeira coisa que se faz ao chegar ao trabalho: ligar o micro, abrir o programa de e-mails e começar a lê-los, como se mais nada interessasse no mundo e na empresa. A produtividade da alta administração cai e quem sofre é a empresa.

Ora, se 90% das mensagens que chegam são spam, a diminuição da ansiedade e o aumento da produtividade passam, necessariamente, pelo combate eficiente a ele. A saída, sem dúvida, é tecnológica. As corporações precisam investir em sistemas eficientes de gestão e soluções de segurança da informação. Só é possível combater tecnologia maliciosa, com tecnologia avançada de baixíssimo delay entre a criação da praga e sua vacina.


Fonte: Por Francisco Camargo, in www.baguete.com.br

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

H2OH! - um produto desacreditado que virou sucesso

O executivo carioca Carlos Ricardo, diretor de marketing da divisão Elma Chips da Pepsico, a gigante americana do setor de alimentos e bebidas, é hoje visto como uma estrela em ascensão no mundo do marketing. Ele é o principal responsável pela criação e pelo lançamento de um produto que movimentou, de forma surpreendente, o mercado de bebidas em 11 países. A princípio, pouca gente fora da Pepsi e da Ambev, empresas responsáveis por sua produção, colocava fé na H2OH!, bebida que fica a meio caminho entre a água com sabor e o refrigerante diet. Mas em apenas um ano a H2OH! conquistou 25% do mercado brasileiro de bebidas sem açúcar, deixando para trás marcas tradicionais, como Coca-Cola Light e Guaraná Antarctica Diet. Além dos números de vendas, a H2OH! praticamente deu origem a uma nova categoria de produto, na qual tem concorrentes como a Aquarius Fresh, da Coca-Cola, e que já é maior do que segmentos consagrados, como os de leites com sabores, bebidas à base de soja, chás gelados e su...

Omni aposta no marketing de rede

Nas tardes de domingo, em diferentes cidades do Brasil, milhares de pessoas vestem suas melhores roupas e se arrumam para ir às reuniões promovidas pela Omni International, empresa paulista que vende lojas virtuais. Recentemente, um desses encontros ocorreu num auditório no bairro de Pinheiros, na zona oeste de São Paulo. O local é imenso, com espaço para acomodar até 1 000 pessoas. Vitrais com cenas da vida de Jesus Cristo indicam que o prédio abriga um templo religioso. Mas, durante a reunião, o palco dos pregadores cede espaço a homens e mulheres que fazem parte da comunidade Omni -- gente que comprou e também vendeu os sites da empresa. Sorridentes e bem vestidos, eles contam suas histórias de sucesso e profetizam uma trajetória de enriquecimento para quem se empenhar. Um dos apresentadores anuncia que já comprou um automóvel Audi. O outro, um Porsche. "Vocês podem ser vencedores", diz um dos palestrantes. "Só precisam de uma oportunidade." As reuniões têm como ...

Doze passos para deixar de ser o “bode expiatório” na sua empresa

Você já viu alguma vez um colega de trabalho ser culpado, exposto ou demitido por erros que não foi ele que cometeu, e sim seu chefe ou outro colega? Quais foram os efeitos neste indivíduo e nos seus colegas? Como isso foi absorvido por eles? No meu trabalho como coach, tenho encontrado mais e mais casos de “bodes expiatórios corporativos”, que a Scapegoat Society, uma ONG britânica cujo objetivo é aumentar a consciência sobre esta questão no ambiente de trabalho, define como uma rotina social hostil ou calúnia psicológica, através da qual as pessoas passam a culpa ou responsabilidade adiante, para um alvo ou grupo. Os efeitos são extremamente danosos, com conseqüências de longo-prazo para a vítima. Recentemente, dei orientação executiva a um gerente sênior que nunca mais se recuperou por ter sido um dia bode expiatório. John, 39 anos, trabalhou para uma empresa quando tinha algo em torno de 20 anos de idade e tudo ia bem até que ele foi usado como bode expiatório por um novo chefe. De...