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40 anos da Comunicação Organizacional no Brasil

Transcrevo abaixo a íntegra da palestra ministrada pelo jornalista e antropólogo Rodolfo Guttilla, Diretor de Assuntos Corporativos e Assuntos Governamentais da Natura e Presidente do Conselho Deliberativo da ABERJE, durante a solenidade a comemoração dos 40 anos do curso de Relações Públicas da Escola de Comunicações e Artes (ECA) da USP. A palestra teve como tema os 40 anos da Comunicação Organizacional no Brasil. Leitura obrigatória. Confira:


"Inicialmente, gostaria de agradecer a Escola de Comunicações e Artes pelo convite para participar desta cerimônia. A instalação do curso de Relações Públicas, há 40 anos na ECA, teve papel determinante para a formação de centenas de intelectuais e profissionais de comunicação e, por extensão, do alargamento e aprimoramento dos campos teórico e epistemológico da disciplina. Ajudou a criar, também, um mercado vigoroso no Brasil.

Não poderia deixar de mencionar, nesse momento de celebração, que na mesma data foi fundada a ABERJE, então Associação Brasileira de Editores de Revistas e Jornais de Empresa. Em 1989, a entidade manteve a sigla já consagrada e passou a se chamar Associação Brasileira de Comunicação Empresarial, tendo no final dos anos 1990, registrado e assumido também o nome de Associação Brasileira de Comunicação
Organizacional.

Assim, em 1967, duas iniciativas visionárias e vitoriosas nasceram quase ao mesmo tempo, com natureza e destino estratégicos – a despeito do fato ou talvez por isso mesmo, de terem surgido na fase mais dura da democracia brasileira, sob o tacão do coturno militar. Nesse ano, o general Castelo Branco entregou a presidência da República ao marechal Costa e Silva, depois de praticar quase quatro mil punições políticas, desde cassações de mandatos eletivos a destituições, exonerações e expulsões. Foi também o ano da promulgação da “Lei de Segurança Nacional” –
cujo efeito, em nossa atividade, resultou no corporativismo e cerceamento dos quais até hoje nos ressentimos. Por outro lado, foi nessa mesma data que surgiu o “Tropicalismo”, anti-movimento que, inspirado por Oswald de Andrade, rompeu com o bom-mocismo e com a pasmaceira reinantes no ambiente cultural, graças aos “Parangolés” de Helio Oiticica, à música de Caetano Veloso e ao Teatro Oficina – que, liderado por José Celso Martinez, encenou “O Rei da Vela”, de Oswald, crítica acerba aos mandatários do poder total, de todas as tonalidades: vermelhos, rosas,
verdes...

Ao longo destes 40 anos, a vida no Ocidente mudou bastante. Nossos pais foram abalroados por uma revolução comportamental sem precedentes e passaram a parte mais importante de suas vidas sob o medo da destruição planetária total. Nossa geração, por sua vez, vive a era da conectividade inter-pessoal global (como preconizada por Marshall McLuhan, em 1964) e do estrondoso fracasso do modelo econômico e produtivo, que coloca em risco a preservação da vida e da humanidade.

Quais serão os dilemas que enfrentarão os nossos filhos e as próximas gerações? Evidentemente, não temos a resposta para esta pergunta. Mas, obviamente, o nosso futuro comum está sendo criado agora, por nossa geração. Reconhecendo este fato, a influência e o papel estratégico que a comunicação exerce na sociedade global, o grupo executivo e os Conselhos da ABERJE promoveram, no último ano, uma reflexão sobre os dilemas e os desafios da comunicação e do comunicador no tempo presente. Essa meditação resultou no documento “A Comunicação Organizacional frente ao seu tempo”, que compartilhamos em primeira mão com a ECA.

Coordenado e escrito por Paulo Nassar, professor desta instituição e Diretor-Geral da ABERJE, Renato Janine Ribeiro, conselheiro da ABERJE, Professor Titular da Universidade de São Paulo, Diretor de Avaliação da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior, CAPES – instituição da qual tive o privilégio de ser bolsista –, e por mim, o documento promove uma investigação aprofundada sobre a complexidade do mundo contemporâneo e o papel da comunicação como fator de aperfeiçoamento dos valores democráticos. Nesse contexto, a ABERJE promoveu também a revisão de sua visão de futuro, de sua missão e de seus valores – que serão objeto de consulta pública, para que seus associados e a sociedade possam opinar. O texto é eloqüente. Nesse sentido, não irei repassá-lo. Gostaria, todavia, de mencionar uma passagem que, acredito, captura o vórtice dessa mudança que mencionei anteriormente, a qual cito fielmente:

“Há quarenta anos, em alguns cursos da ABERJE se tratava da gramatura do papel. Hoje, o que está em jogo é o nosso papel na 'dramatura' do mundo. A formação do bom profissional que conhece seus métodos, suas técnicas, foi um grande êxito nosso. Nunca houve profissionais de tanta qualidade, nem tanto avanço técnico. Mas o tempo presente nos trouxe questões éticas que não podemos ignorar e que nos interpelam como seres humanos. No drama de nossos dias, que papel nós, comunicadores, vamos assumir, uma vez que somos profissionais capacitados ao mesmo tempo em que simples seres humanos, diante dos grandes desafios sociais, econômicos e ambientais, que são a miséria e o aquecimento global?” (Nassar, Janine Ribeiro e Guttilla, p.5, 2007)

O jogo das palavras gramatura e “dramatura” evidencia a posição estratégica que a comunicação e o comunicador ocupam no tempo presente. Acredito que já seja consenso que a nossa atividade despontou, no Brasil, com o movimento de abertura política, nos anos de 1980, por meio do surgimento de novos interlocutores, como sindicatos, organizações não-governamentais e outros protagonistas sociais e políticos. Nas décadas seguintes, foi revigorada pelo surgimento de novas empresas e organizações, e, em função deste fato, pela promoção da concorrência e dos direitos do consumidor (em um mercado até então fechado e artificialmente protegido). Nesse sentido, a atividade do comunicador não depende, faz muito tempo, de reserva de mercado, proteção ou unção: em uma sociedade cada vez mais global e complexa, sua necessidade e atualidade são evidentes. Assim, organizações e profissionais devem romper estereótipos, barreiras e preconceitos, unindo aos campos teórico e epistemológico a prática e o exercício de nossa atividade, múltipla e diversa.

A complexidade do mundo contemporâneo impõe também um ambiente de cooperação e colaboração entre pessoas e instituições. Para tanto, torna-se imperativo promover e facilitar a interação e o diálogo entre as diversas redes sociais e de negócios. Nesse contexto, podemos afirmar que não há desenvolvimento sustentável sem comunicação. E não haverá futuro para as próximas gerações se não houver uma mudança no modo de as organizações produzirem e, especialmente, no hábito de consumo de bens e serviços por parte da sociedade. O desafio dos comunicadores está em promover esta nova e urgente consciência.

Além disso, o comunicador deve saber olhar o mundo com afeto, independência, honestidade e firmeza para defender seus pontos de vista, fortalecer a democracia e zelar pela liberdade. No ano passado, fui distinguido por esta instituição com o “Prêmio USP de Comunicação Corporativa” por minha trajetória profissional. Na ocasião, tive o privilégio de receber a premiação no Teatro Municipal de São Paulo, palco por onde passaram ícones da cultura brasileira – como Villa-Lobos e Mario de Andrade. Naquele momento, emocionado com o fato e pela circunstância, citei um versinho de Mario de Andrade que, acredito, reflete a ocupação – caudalosa e multifacetada – do comunicador organizacional: “Eu sou trezentos, sou trezentos-e-cincoenta”.

Se menciono este reconhecimento, o faço desprovido de qualquer traço de vaidade: em minha trajetória de vida nunca me preparei para o exercício da profissão de comunicador empresarial. Tampouco sou um pensador no campo da comunicação, visto que dedico minha vida intelectual à antropologia, à literatura e à crítica literária. Vivi, todavia, muitas vidas – como disse Darcy Ribeiro: fui também repórter, editor,
pesquisador e professor. O relativo sucesso que obtive na profissão de comunicador e no exercício da administração das empresas, equipes e entidades de classe sob minha responsabilidade, se deve ao apoio que tenho recebido de minha família, de minhas equipes, de meus chefes e de meus colegas de diretoria e conselhos da ABERJE.
Gostaria de terminar minha exposição reafirmando que a Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo, dirigida pelo professor Doutor Luiz Milanesi, e o Departamento de Relações Públicas, Propaganda e Turismo, chefiado pelo professor Doutor Victor Aquino, em especial o curso de Relações Públicas, coordenado pela querida professora Doutora Margarida Kunsch, e seu notável corpo docente, desempenham um papel que vai muito além de seus muros. Seja no ensino das disciplinas da comunicação nas organizações, como na formulação de conhecimento
necessário e inspirador para outras disciplinas. Há 40 anos, estes homens e mulheres abrem horizontes, ao observar interpretar a vida como fenômeno relacional e a atividade do comunicador em sua dimensão cívica".


Fonte: Por Rodolfo Witzig Guttilla, in www.aberje.com.br

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