Angústias e problemas viram pauta de terapia empresarial

O executivo Sérgio Siqueira Campos, proprietário da Nutrin Sistemas de Alimentação, empresa presente em dez estados, com 2,2 mil funcionários, sente-se muito solitário na hora de tomar decisões importantes, relativas ao seu negócio. "A mão-de-obra especializada, por exemplo, é uma dor de cabeça para mim. Não sei onde encontrá-la.", admite.

Ele foi um dos 15 gestores que participaram da primeira sessão de desabafos e confidências da Confraria Executiva, grupo de líderes que se reunirá em São Paulo, mensalmente, para debater suas angústias e preocupações à frente das respectivas empresas. Nas sessões, os executivos levam os problemas ou assuntos que os afligem e recebem sugestões sobre as melhores formas de resolvê-los. "Vim aqui para ver se enxergo a luz no fim do túnel", afirma Siqueira.

Inaugurada ontem, a confraria foi criada por dois ex-executivos, que trilharam os caminhos da consultoria, na área de gerenciamento de empresas familiares e desenvolvimento de negócios, João Baptista Sundfeld e Carlos Barbosa. "Resolvemos adaptar esta idéia muito utilizada nos Estados Unidos e no Canadá às condições do mercado brasileiro", revela Barbosa. "Aqui, empresas familiares e com nível de faturamento menor têm que passar por grandes incertezas. O profissional, na maior parte das vezes, sente-se solitário para resolver problemas de gestão. Não pode se abrir com o funcionariado e não quer despejar suas dúvidas na esposa."

José Medeiros, executivo da Equipágua, especializada na distribuição de material de piscina, afirma que pretende encontrar no grupo discussões sobre temas profissionais, como estratégias e logística para pequenas companhias. Mas e se o comportamento de um colega da empresa estiver tirando o sono de um dos membros da confraria? "Todos os problemas são bem-vindos", avisa o consultor Sundfeld, um dos criadores da iniciativa. "Queremos discuti-los, mas com foco voltado ao lado profissional. A idéia não é fazer dos encontros um muro de lamentação."

A base dos encontros será a discussão de problemas enfrentados no dia-a-dia, que podem, inclusive, ser dramatizados. "Um determinado problema é exposto e discutido pelos membros do grupo. Na reunião seguinte, o grupo cobra do expositor uma posição para saber como tal problema foi enfrentado", explica Sundfeld. "É importante que o executivo traga pelo menos um esboço de solução."

Segundo ele, porém, a seriedade nos debates não impede que os assuntos sejam tratados de forma agradável. "Tudo com muito humor, mas também com a seriedade que os assuntos relativos à vida executiva merecem ser tratados".

Sunfeld, que atuou como executivo em muitas companhias, diz que os problemas das empresas familiares nacionais são praticamente os mesmos. "Sempre, os executivos e empresários esbarram, por exemplo, na questão da sucessão. Claro que este problema não existe numa multinacional, mas é recorrentre em empresas menores", assegura.

O hoje consultor garante que, como nas terapias tradicionais, os executivos podem ligar e pedir socorro em situações extremas. "São as famosas sessões-extras. Os associados podem nos procurar quando bem entenderem", avisa. Para participar do grupo, os executivos pagam uma mensalidade de R$ 950.

E, apesar da temática séria, os participantes encontram tempo para a descontração. "Ainda bem que estou indo embora, antes que a equipe de reportagem comece a disparar fotos. Sou um incógnito aqui, minha cara não pode sair estampada na Gazeta Mercantil", brinca um executivo, que não quis se identificar, na reunião inaugural.

Enquanto ele saía de fininho, a proprietária da Meritor Recursos Humanos, Soraia Zogbi, única presença feminina no grupo, não se importava com as fotos. "Pois podem me fotografar. Contanto que me deixem passar batom antes".


Fonte: Por Alexandre Staut, in Gazeta Mercantil/Caderno C - Pág. 11
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