Pular para o conteúdo principal

Criando e sustentando uma cultura vencedora

A cultura - valores, idéias e comportamentos adotados em uma organização - é tão importante quanto qualquer indicador financeiro.

Herb Kelleher, o executivo que liderou a Southwest Airlines para o topo da indústria de aviação americana, atribuía à cultura sua liderança. "Nossos competidores podem copiar toda nossa estratégia. Mas eles não podem copiar nossa cultura, e sabem disso."

Kelleher não está sozinho. Em recente pesquisa da Bain & Company com 1,2 mil executivos, 91% deles concordaram que "cultura é tão importante quanto a estratégia em um negócio de sucesso". Em outra pesquisa, 81% concordaram que, sem uma cultura vencedora, a empresa está "destinada à mediocridade". Porém, se é fácil admitir que uma cultura vencedora é necessária, criá-la requer mudanças profundas em comportamentos enraizados.

Uma cultura vencedora se define em duas características principais. Primeiro, a personalidade única da empresa se espalha por toda a organização. O esforço do Wal Mart em baixos preços não é o mesmo da Natura por produtos sustentáveis. Ambos são diferentes dos esforços da América Latina Logística de se transformar de uma antiga gigante estatal em uma empresa com foco em desempenho. Porém, elas têm uma coisa em comum: os funcionários destas empresas conseguem identificar seus valores e prioridades.

Segundo, cada organização deve ter um conjunto de normas e comportamentos que traduzam sua personalidade e valores únicos em resultados financeiros tangíveis. Nas culturas vencedoras os empregados buscam melhorar constantemente, mantendo um foco externo nos consumidores e competidores. Pensam e agem como donos - assumem responsabilidade pelos resultados da empresa - e têm foco na ação, sem se perder em burocracias desnecessárias.

O desafio de criar e sustentar uma cultura vencedora envolve quatro passos. A criação da ALL ilustra bem este processo. A equipe de liderança, após a privatização,foi escolhida a dedo, combinando jovens expoentes do fundo controlador - o GP - e executivos experientes do setor.

O primeiro passo é definir as expectativas e alinhar o time em torno de uma visão comum. Rapidamente, os novos gestores definiram seus objetivos estratégicos e partiram para alinhar o time. Em seus primeiros dias, o então CEO Alexandre Behring entrevistou pessoalmente mais de 150 gestores e identificou um grupo de 30 que estavam alinhados com os novos objetivos e prontos para liderar a mudança. Muitos fatores são importantes para influenciar a cultura de uma organização, mas nada é tão importante quanto a liderança - o que os líderes fazem e dizem (nesta ordem).

Introduzir mudanças focando no negócio da empresa é o segundo passo, uma vez que a cultura é um meio para se atingir objetivos e não um fim. A agenda dos gestores para a empresa não era um programa de mudança cultural, mas sim o desenho e implementação de um novo plano de incentivos, com drivers bastante concretos. Cada gerente definia cinco metas pessoais, alinhadas aos objetivos da empresa, acompanhadas de perto, e que impactavam parcela importante da remuneração.

O terceiro passo é administrar a cultura por meio dos seus drivers. Assim, as mudanças surgem dos incentivos para comportamentos desejados. Nos primeiros anos, o CEO se habilitou como maquinista e dedicou tempo a trabalhar junto aos demais maquinistas, conhecendo-os melhor e mostrando, na prática, os valores e comportamentos que a empresa esperava deles.

Por fim, o quarto passo é comunicar e celebrar. Cada desafio alcançado e cada mudança conseguida devem ser comunicados e celebrados. A proximidade e abertura com os empregados, da alta gestão à linha de frente, a definição de metas claras e objetivas e a divulgação sistemática dos resultados são exemplos de como reforçar os resultados alcançados.

O empenho na mudança da ALL foi acompanhado de um enorme esforço em custos, prospecção de clientes e ampliação de capacidade, trazendo resultados significativos. As receitas cresceram 2,5 vezes nos três primeiros anos, enquanto os custos fixos caíram 26% no mesmo período. Um reflexo da cultura e da estratégia.
Nossas pesquisas indicam que nove em dez executivos colocam a cultura no mesmo nível de importância da estratégia. Alguns executivos vão mais longe, como Lou Gerstner, ex-chairman da IBM: "Cultura não é apenas uma parte do jogo. Cultura é o jogo".


Fonte: Por Jean Claude Ramirez, com colaboração de Gustavo Camargo, in Gazeta Mercantil/Caderno A - Pág. 3

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

H2OH! - um produto desacreditado que virou sucesso

O executivo carioca Carlos Ricardo, diretor de marketing da divisão Elma Chips da Pepsico, a gigante americana do setor de alimentos e bebidas, é hoje visto como uma estrela em ascensão no mundo do marketing. Ele é o principal responsável pela criação e pelo lançamento de um produto que movimentou, de forma surpreendente, o mercado de bebidas em 11 países. A princípio, pouca gente fora da Pepsi e da Ambev, empresas responsáveis por sua produção, colocava fé na H2OH!, bebida que fica a meio caminho entre a água com sabor e o refrigerante diet. Mas em apenas um ano a H2OH! conquistou 25% do mercado brasileiro de bebidas sem açúcar, deixando para trás marcas tradicionais, como Coca-Cola Light e Guaraná Antarctica Diet. Além dos números de vendas, a H2OH! praticamente deu origem a uma nova categoria de produto, na qual tem concorrentes como a Aquarius Fresh, da Coca-Cola, e que já é maior do que segmentos consagrados, como os de leites com sabores, bebidas à base de soja, chás gelados e su...

Funcionários da Domino´s Pizza postam vídeo no You Tube e são processados

Dois funcionários irresponsáveis imaginam um vídeo “muito engraçado” usando alimentos e toda sorte de escatologia. O cenário é uma cozinha da pizzaria Domino´s. Pronto, está feito o vídeo que mais chamou a atenção da mídia americana na semana passada. Nele, os dois funcionários se divertem enquanto um espirra na comida, entre outras amostras de higiene pessoal. Tudo isso foi postado no you tube no que eles consideraram “uma grande brincadeira”. O vídeo em questão, agora removido do site, foi visto por mais de 930 mil pessoas em apenas dois dias. (o vídeo já foi removido, mas pode ser conferido em trechos nesta reportagem: http://www.youtube.com/watch?v=eYmFQjszaec ) Mas para os consumidores da rede, é uma grande(síssima) falta de respeito. Restou ao presidente a tarefa de “limpar” a bagunça (e a barra da empresa). Há poucos dias, Patrick Doyle, CEO nos EUA, veio a público e respondeu na mesma moeda. No vídeo de dois minutos no You Tube, Doyle ( http://www.youtube.com/watch?v=7l6AJ49xNS...

Doze passos para deixar de ser o “bode expiatório” na sua empresa

Você já viu alguma vez um colega de trabalho ser culpado, exposto ou demitido por erros que não foi ele que cometeu, e sim seu chefe ou outro colega? Quais foram os efeitos neste indivíduo e nos seus colegas? Como isso foi absorvido por eles? No meu trabalho como coach, tenho encontrado mais e mais casos de “bodes expiatórios corporativos”, que a Scapegoat Society, uma ONG britânica cujo objetivo é aumentar a consciência sobre esta questão no ambiente de trabalho, define como uma rotina social hostil ou calúnia psicológica, através da qual as pessoas passam a culpa ou responsabilidade adiante, para um alvo ou grupo. Os efeitos são extremamente danosos, com conseqüências de longo-prazo para a vítima. Recentemente, dei orientação executiva a um gerente sênior que nunca mais se recuperou por ter sido um dia bode expiatório. John, 39 anos, trabalhou para uma empresa quando tinha algo em torno de 20 anos de idade e tudo ia bem até que ele foi usado como bode expiatório por um novo chefe. De...