Quem quer ser uma celebridade?

Você já deve ter visto vários posts falando sobre celebridades na blogosfera. A Wikipédia inclusive mantém diretórios de fenômenos da Internet e de "celebridades" do YouTube. Lá você encontra listagens atualizadas de vídeos, músicas, perfomances e pessoas que de uma hora para outra se tornam muito conhecidos em todos os cantos da Web. Mais do que de repente, você começa a receber links do YouTube e de sites cujos personagens principais você passa a saber o nome. Foi assim com Mahir Çağrı (I kiss you), Tay Zonday, Dancing Matt , Obama Girl, entre tantos outros. Com a mesma velocidade, você repassa o link em seu blog, por e-mail e no Twitter. É com essa disseminação em rede que anônimos ganham notoriedade e, possivelmente, até dinheiro e reconhecimento da grande mídia. Tay Zonday, por exemplo, estrelou um comercial para o refrigerante Dr. Pepper e, nada mais lógico, apresentou o evento YouTube Live. Durante este último evento, outras "celebridades" do YouTube fizeram apresentações, como Funtwo, Bo Burnham, Chad Vader.

Quer ver um pout-pourri dessas personalidades da Web? Então não deixe de assistir ao bem-humorado clipe da música Pork and Beans, da banda Weezer, por onde desfilam vários famosos da internet (veja aqui a listagem).

Mas seriam de fato celebridades? Estes desconhecidos que ganham súbita fama na rede (e muitas vezes desaparecem logo em seguida) podem ser comparados a Tom Cruise, Britney Spears, Paris Hilton, Luma de Oliveira, Sandy, Xuxa, Luana Piovani? Será que fãs dormiriam na frente do hotel em que Mahir Çağrı está hospedado? E quanto da pequena venda de camisetas de Tay Zonday não passa de simples curtição?

Em outras palavras, podemos simplesmente aplicar o mesmo termo "celebridade" a pessoas que ganham notoriedade instantânea? Veja, celebridade não é o mesmo que renome. Ser bem conhecido e até admirado em um bairro ou em uma comunidade científica não é o suficiente para tal pessoa atingir o mesmo status de um Bono Vox. Celebridades não são apenas pessoas famosas. Tais figuras, que passaram a emergir no cinema na primeira década do século XX, são uma mercadoria das indústrias culturais. Seus nomes e personalidades construídas servem como slogans de venda, fazem parte de estratégias mercadológicas. E, como produtos a venda, seus nomes (marcas) e suas imagens são controladas por equipes que ajustam suas aparições ao gosto dos consumidores.

Celebridades devem ser compreendidas em uma lógica de produção e consumo, segundo estratégias persuasivas bem planejadas. Como mercadoria, também se tornam obsoletas assim que um novo nome/produto atinge o mercado midiático. Nessa lógica, cantoras loiras, boy bands, calouros em programas de auditório (American Idol e afins), modelos e atores se sucedem na prateleira.

Não é estranho, portanto, que apliquemos o mesmo conceito da comunicação de massa ("celebridade") a pessoas de renome ou que alcancem rápido reconhecimento na rede? E será que estamos tão adestrados pela grande mídia que também desejamos inventar e encontrar celebridades na blogosfera? Que papel elas tem em nosso imaginário já que esperamos encontrar o mesmo terreno familiar das estrelas nas telas de nossos computadores? Não seria a internet o espaço onde nos livraríamos do poder da mídia?

Estas são algumas das questões que motivaram a escrita deste artigo que apresentarei na próxima semana no Encontro da Compós em Belo Horizonte. E este é o tema que inspirará os posts desta semana.


Fonte: Por Alex Primo, in Dossiê Alex Primo
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