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Tudo certo quanto dois e dois são cinco

Há o mundo da subjetividade, do invisível, da sensibilidade, da percepção, do vago e da intuição. E há o mundo cartesiano dos números e da exatidão. Posicionamos-nos com mais presença em um ou no outro, de acordo com as nossas inteligências emocionais. Cedo na vida já nos direcionamos para as ciências exatas ou para as artes. Parece que a natureza sabe fazer divisões com sabedoria. Um filho vai ser engenheiro e o outro ator de teatro.

Para quem trabalha com marketing e comunicação corporativa é imprescindível saber transitar pelos dois mundos. Ora temos de ser essencialmente lógicos, buscadores do óbvio e das contas exatas, ora partimos para o puro delírio, caminhando por sonhos e impossibilidades totais. Lidamos com empresas e humanos. No mundo dos negócios seguimos a lei da lógica, das finanças, do “quanto vamos ganhar com isto” ou “que resultado esta ação trará para os nossos acionistas”. É a parte cartesiana do marketing, aquela que soma, divide, multiplica e subtrai. Quando tratamos com os humanos - aqueles que compram nossos produtos e serviços - temos de saber embalar seus sonhos, pois as pessoas são regidas pela emoção e se encantam com cores, formatos, cheiros, desenhos, sensações e histórias.

Uma empresa que só pensa racionalmente não cria uma boa marca, e as pessoas compram marcas. Uma empresa que é regida só pela emoção, quebra. Daí o fiel da balança: saber contemporizar as duas coisas. O profissional cartesiano da empresa dificilmente vai entender um plano de comunicação baseado na sensibilidade, na invenção de histórias e no porquê daquela despesa para fazer uma foto, uma trilha sonora ou um comercial fora do contexto. É famoso o comentário de um financista que, quando leu o roteiro do filme King Kong, perguntou: “A história é boa, mas não dá para tirar o macaco?”

O profissional da comunicação, aquele que cria os sonhos, deve, por obrigação, saber caminhar pelos dois mundos. Viver o estado de poesia para criar as ações que emocionam a marca e saber quanto custa e quanto se ganha com suas ações “não bem explicadas”. Ele vai ter de vender as suas idéias, justamente para os que sabem contar as cifras: os que acumulam riquezas e não emoções. Os especialistas em dar respostas, boas ou más, aos acionistas e stakeholders. Estamos na era da tirania dos financeiros e eles adoram dificultar a construção de marcas, apesar de adorarem vendê-las por valores substanciais.

A natureza faz a divisão dos cartesianos e dos sonhadores com tanta perfeição que um não vive sem o outro, e isto, até na mesma cabeça. Para tomar decisões, precisamos seguir a lógica e colocar o contrapeso da emoção. Antonio Damascio, um neurocientista, descobriu isso quando estudou o caso de um operário que num acidente teve o cérebro transpassado por uma barra de ferro que o separou em dois. A parte do pensamento lógico da parte do emocional. O homem não morreu, mas teve para sempre prejudicada a sua capacidade de tomar decisões. É a ligação da parte lógica com a emocional que nos permite pesar as conseqüências antes das tomadas de decisões. Quer tomar boas decisões? Use primeiro a lógica e depois tempere com a sensibilidade. Os melhores empresários são os que sabem usar a intuição calcada nas informações de mercado. Devemos ter a imaginação como companheira de viagem, mas o guia sempre deve ser a razão, senão vamos nos perder pelo caminho.



Fonte: Por Eloi Zanetti – especialista em comunicação corporativa, marketing e vendas, in www.aberje.com.br

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