Pular para o conteúdo principal

O sem-terra que produz

Encontramos duas coisas que não achávamos que existiam: um agricultor que sabe fazer conta e um argentino gente boa." A frase, dita com a típica picardia carioca, é de André Sá, um dos ex-sócios do extinto banco Pactual. O hermano descrito como simpático e bom de cálculo é Gustavo Grobocopatel, controlador da Los Grobo, uma das maiores empresas agrícolas da Argentina. A união entre os cariocas do Pactual Capital Partners, o PCP, fundo que gere o dinheiro dos ex-sócios do banco, e o grupo com sede em Carlos Casares, na província de Buenos Aires, aconteceu no ano passado. Por 100 milhões de dólares, o PCP comprou uma participação de 25% na Los Grobo. A ideia de casamento partiu de diferentes interesses, mas com um ponto em comum: o Brasil. Os financistas queriam fincar os pés no setor agrícola, e Grobocopatel, diante das crescentes dificuldades vividas pelo seu país natal, estava buscando capital e parceria para explorar o mercado brasileiro. Passados 14 meses, a Los Grobo passou de zero a 120 000 hectares cultivados no Brasil - mais da metade da área plantada pela SLC, maior empresa agrícola brasileira listada em bolsa. Ou seja, em pouco mais de um ano já senta à mesa dos maiores produtores agrícolas do país.

O curioso é que a Los Grobo faz tudo isso sem ter um só palmo de terra próprio para a produção. Ao todo, são 745 000 hectares - área cinco vezes maior que o município de São Paulo - arrendados ou pertencentes a produtores vinculados à companhia nos quatro países em que atua, Argentina, Brasil, Paraguai e Uruguai. O modelo de negócio criado por Grobocopatel, que chegou a ser estudado na Universidade Harvard, é inédito no mercado brasileiro. A Los Grobo arrenda uma propriedade e, uma vez instalada, oferece serviços aos vizinhos e compra sua produção. "Para cada hectare que plantamos, fomentamos 2 de outros produtores", diz Grobocopatel, presidente da companhia. É do financiamento de produtores, apoio técnico, logística e armazenagem que sai a maior parte das receitas. O restante vem da comercialização de grãos. Os produtores podem se associar à empresa antes do plantio, na colheita ou apenas na hora de vender a produção. "Foi esse modelo flexível que ajudou a Los Grobo a crescer rapidamente no Brasil", diz José Carlos Hausknecht, um dos sócios da consultoria paulista MBAgro.

O embrião do atual modelo surgiu em 1989, quando Grobocopatel, aos 26 anos e já formado em engenharia agronômica, começou a consultar livros para melhorar a gestão da empresa de seu pai, filho de imigrantes judeus nascidos no que hoje é a Moldova. Em vez de ler as obras clássicas voltadas para o mundo dos negócios, Grobocopatel se sentiu atraído pelos livros de Manuel Castells, o sociólogo espanhol que desenvolveu a teoria da sociedade em rede. Grobocopatel viu que não iria longe se seguisse o modelo do pai, baseado na aquisição de terras - os valores necessários seriam muito altos. Por isso, investiu na ideia de ser o elo de uma rede de produtores independentes. Em meados da década de 80, a empresa tinha apenas quatro funcionários e faturava menos de 3 milhões de dólares. Hoje são 900 funcionários e receita de 800 milhões de dólares projetada para 2009.

Apesar do crescimento até agora, o grande teste da Los Grobo serão os próximos anos no Brasil. No prazo de um ano, a meta é que o mercado brasileiro passe a responder por mais de 50% das receitas. O pano de fundo dessa movimentação é o sonho de se tornar um gigante regional. Por enquanto, as operações brasileiras estão concentradas na região do "Mapito", como é chamada a junção dos estados de Maranhão, Piauí e Tocantins. "Foi uma questão de prioridade", diz Sá, vice-presidente da Los Grobo. "Como era uma nova fronteira, se demorássemos iríamos perder as melhores chances." Depois do Mapito, a companhia quer ir para Mato Grosso e, de lá, descerá para o Sudeste e o Sul.

No Brasil, são raros os casos de empresas locais que fazem o meio-de-campo entre os produtores e as grandes exportadoras - a francesa Louis Dreyfus e as americanas ADM, Bunge, Cargill e Monsanto. São essas companhias que financiam os produtores. Em razão da crise, elas estão reduzindo o financiamento para os produtores e, com isso, a Los Grobo está aproveitando o vácuo para crescer. "Quando a parte mais aguda da crise passar, o ambiente voltará a ficar mais concorrido", diz André Pessoa, diretor da Agroconsult. Além disso, a Los Grobo está acostumada a operar na Argentina, país de solo mais fértil. Por aqui, é preciso investir mais no início da produção. Financiar o gasto inicial só faz sentido se houver um contrato de longo prazo com o fazendeiro. Mas o próprio Grobocopatel reconhece que o produtor brasileiro não costuma aceitar vínculos longos. Mais do que produzir, seu desafio é provar que o modelo vitorioso na Argentina também dá certo por aqui.


Fonte: Por Guilherme Fogaça, in portalexame.abril.com.br

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

H2OH! - um produto desacreditado que virou sucesso

O executivo carioca Carlos Ricardo, diretor de marketing da divisão Elma Chips da Pepsico, a gigante americana do setor de alimentos e bebidas, é hoje visto como uma estrela em ascensão no mundo do marketing. Ele é o principal responsável pela criação e pelo lançamento de um produto que movimentou, de forma surpreendente, o mercado de bebidas em 11 países. A princípio, pouca gente fora da Pepsi e da Ambev, empresas responsáveis por sua produção, colocava fé na H2OH!, bebida que fica a meio caminho entre a água com sabor e o refrigerante diet. Mas em apenas um ano a H2OH! conquistou 25% do mercado brasileiro de bebidas sem açúcar, deixando para trás marcas tradicionais, como Coca-Cola Light e Guaraná Antarctica Diet. Além dos números de vendas, a H2OH! praticamente deu origem a uma nova categoria de produto, na qual tem concorrentes como a Aquarius Fresh, da Coca-Cola, e que já é maior do que segmentos consagrados, como os de leites com sabores, bebidas à base de soja, chás gelados e su...

Omni aposta no marketing de rede

Nas tardes de domingo, em diferentes cidades do Brasil, milhares de pessoas vestem suas melhores roupas e se arrumam para ir às reuniões promovidas pela Omni International, empresa paulista que vende lojas virtuais. Recentemente, um desses encontros ocorreu num auditório no bairro de Pinheiros, na zona oeste de São Paulo. O local é imenso, com espaço para acomodar até 1 000 pessoas. Vitrais com cenas da vida de Jesus Cristo indicam que o prédio abriga um templo religioso. Mas, durante a reunião, o palco dos pregadores cede espaço a homens e mulheres que fazem parte da comunidade Omni -- gente que comprou e também vendeu os sites da empresa. Sorridentes e bem vestidos, eles contam suas histórias de sucesso e profetizam uma trajetória de enriquecimento para quem se empenhar. Um dos apresentadores anuncia que já comprou um automóvel Audi. O outro, um Porsche. "Vocês podem ser vencedores", diz um dos palestrantes. "Só precisam de uma oportunidade." As reuniões têm como ...

Construtora pega carona com o Gugu

Há cerca de um mês, o empresário carioca Augusto Martinez, dono do grupo imobiliário AGM, foi convidado para um jantar entre amigos num elegante apartamento da avenida Vieira Souto, em Ipanema, o endereço mais caro do Rio de Janeiro. A comida estava boa, a conversa agradável, mas durante toda a noite Martinez ficou intrigado com a estranha familiaridade com que era tratado por um dos garçons, que insistia em chamá-lo de Augusto. Vasculhou a memória tentando se lembrar de onde eles se conheciam. Nada. "O senhor não me conhece, não", disse o garçom quando perguntado. "Mas eu conheço bem o senhor. Não perco seus programas." Aos 49 anos de idade, freqüentador da elite de empresários cariocas e dono de quatro empresas que faturam 300 milhões de reais por ano, Martinez recentemente descobriu o que é ser uma pequena celebridade popular. Desde maio deste ano, ele ajuda a apresentar um quadro quinzenal no programa Domingo Legal, de Gugu Liberato, no SBT. Batizado de Construi...