A esta altura do processo de desenvolvimento da responsabilidade social empresarial no País é justo perguntar até que ponto uma norma como a IS0 26000 pode ser considerada imprescindível para a consolidação das práticas socialmente responsáveis entre as empresas brasileiras. Imprescindível ela certamente não será, por várias razões. Necessária, talvez. Mas não como foi a sua prima mais velha, a ISO 9000, para o estímulo à implantação da qualidade. Nem como sua irmã, a ISO 14000, para a disseminação das práticas de ecoeficiência e redução de impactos ambientais.
Os tempos são outros. Os movimentos são outros. Nos anos 1980 e 1990, a International Organization for Standartization tomou a frente dos debates sobre qualidade e ecoeficiência. Foi a sua principal referência, a sua fonte de geração de padrões. E, por causa disso, seu conjunto de normas, mais do que sugestivas, serviu como diretriz básica, roteiro de orientação e implantação dos processos então iniciados nas empresas.
A RSE nasceu mais solta, menos regulamentada, fruto de um período de gestação menor e mais acelerado. Produto de uma mudança radical no modo de pensar e fazer negócios, demandada a partir da segunda metade os anos 1990, ela cresceu muito rápido, ganhou corpo e se expandiu pelo mundo como uma resposta das empresas aos reclamos de uma sociedade globalizada que passou a contestar eticamente um modelo de desenvolvimento fundamentado no crescimento econômico, mas com prejuízo do equilíbrio social e da preservação do meio ambiente.
Não houve tempo, portanto, para estabelecer padrões ou normas. Muito menos para que esse debate fosse incubado tecnicamente no âmbito de uma única organização certificadora. Tanto isso é verdade que o maior esforço dos idealizadores da ISO 26000 tem sido o de harmonizar avanços conceituais propostos por diferentes organizações em todo o mundo: um cuidado importante de quem não quer mudar as regras de um jogo que não começou hoje, de quem não está a fim de assumir o ônus de engessar movimento que, bem ou mal, segue seu curso autônomo e flui com energia própria.
Este quadro talvez explique também o fato de que a ISO 26000, ao contrário das séries anteriores que pretende complementar, não será elaborada com base em pré-requisitos nem fornecerá selo de certificação. Sua principal finalidade parece ser a de consubstanciar, a partir de documentos já existentes, como o do Global Reporting Initiative (GRI), uma definição simples e um conjunto de procedimentos-padrão internacionalmente aceitos, apoiando não só as empresas, mas também outras organizações, na formalização de políticas efetivas de RS.
Com tal propósito e tais zelos, ela tem tudo para ser necessária e bastante útil. O seu potencial de contribuição, no entanto, não se esgota nesses pontos específicos. Além de se propor conferir unidade de linguagem às práticas de RS, constituir-se em guia de orientação para organizações de diferentes tipos e portes e servir como guia operacional, em qualquer estágio de implantação, a 26000 traz como benefícios básicos, a rigor, os mesmos oferecidos, de modo geral, pelas demais normas: a avaliação permanente de processos e a auditoria externa.
O primeiro item, fundamental em qualquer processo de gestão, consiste em pré-condição para formar cultura de RS nas organizações, retirando o tema da confortável posição de prática de adesão voluntária para o status de política estratégica, o que poderá - se bem conduzido - fazê-lo migrar da epiderme para a corrente sanguínea do negócio. O segundo benefício, igualmente relevante, produzirá impacto decisivo na credibilidade da empresa. A independência, fator intrínseco a todo esforço de auditoria externa que se preze, constitui um modo de eliminar definitivamente uma certa desconfiança das pessoas sobre até que ponto o que as companhias dizem fazer em RS não é mera retórica para fortalecer imagem e reputação em tempos nos quais uma e outra equivalem a ativos intangíveis muito valorizados no mercado.
Que venha, portanto, a ISO 26000. Ela será muito útil.
Fonte: Por Ricardo Voltolini, in www.aberje.com.br
Os tempos são outros. Os movimentos são outros. Nos anos 1980 e 1990, a International Organization for Standartization tomou a frente dos debates sobre qualidade e ecoeficiência. Foi a sua principal referência, a sua fonte de geração de padrões. E, por causa disso, seu conjunto de normas, mais do que sugestivas, serviu como diretriz básica, roteiro de orientação e implantação dos processos então iniciados nas empresas.
A RSE nasceu mais solta, menos regulamentada, fruto de um período de gestação menor e mais acelerado. Produto de uma mudança radical no modo de pensar e fazer negócios, demandada a partir da segunda metade os anos 1990, ela cresceu muito rápido, ganhou corpo e se expandiu pelo mundo como uma resposta das empresas aos reclamos de uma sociedade globalizada que passou a contestar eticamente um modelo de desenvolvimento fundamentado no crescimento econômico, mas com prejuízo do equilíbrio social e da preservação do meio ambiente.
Não houve tempo, portanto, para estabelecer padrões ou normas. Muito menos para que esse debate fosse incubado tecnicamente no âmbito de uma única organização certificadora. Tanto isso é verdade que o maior esforço dos idealizadores da ISO 26000 tem sido o de harmonizar avanços conceituais propostos por diferentes organizações em todo o mundo: um cuidado importante de quem não quer mudar as regras de um jogo que não começou hoje, de quem não está a fim de assumir o ônus de engessar movimento que, bem ou mal, segue seu curso autônomo e flui com energia própria.
Este quadro talvez explique também o fato de que a ISO 26000, ao contrário das séries anteriores que pretende complementar, não será elaborada com base em pré-requisitos nem fornecerá selo de certificação. Sua principal finalidade parece ser a de consubstanciar, a partir de documentos já existentes, como o do Global Reporting Initiative (GRI), uma definição simples e um conjunto de procedimentos-padrão internacionalmente aceitos, apoiando não só as empresas, mas também outras organizações, na formalização de políticas efetivas de RS.
Com tal propósito e tais zelos, ela tem tudo para ser necessária e bastante útil. O seu potencial de contribuição, no entanto, não se esgota nesses pontos específicos. Além de se propor conferir unidade de linguagem às práticas de RS, constituir-se em guia de orientação para organizações de diferentes tipos e portes e servir como guia operacional, em qualquer estágio de implantação, a 26000 traz como benefícios básicos, a rigor, os mesmos oferecidos, de modo geral, pelas demais normas: a avaliação permanente de processos e a auditoria externa.
O primeiro item, fundamental em qualquer processo de gestão, consiste em pré-condição para formar cultura de RS nas organizações, retirando o tema da confortável posição de prática de adesão voluntária para o status de política estratégica, o que poderá - se bem conduzido - fazê-lo migrar da epiderme para a corrente sanguínea do negócio. O segundo benefício, igualmente relevante, produzirá impacto decisivo na credibilidade da empresa. A independência, fator intrínseco a todo esforço de auditoria externa que se preze, constitui um modo de eliminar definitivamente uma certa desconfiança das pessoas sobre até que ponto o que as companhias dizem fazer em RS não é mera retórica para fortalecer imagem e reputação em tempos nos quais uma e outra equivalem a ativos intangíveis muito valorizados no mercado.
Que venha, portanto, a ISO 26000. Ela será muito útil.
Fonte: Por Ricardo Voltolini, in www.aberje.com.br
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