Pular para o conteúdo principal

Mais do que uma caneta

A empresa se comportou durante muito tempo como um ser fora da história. A visão empresarial procurava ficar nos limites do que acontecia na linha de produção. O mundo para a empresa era só sinônimo de mercado, assim como as pessoas eram apenas consumidoras de produtos. Este reducionismo mercantil foi suficiente para manter o relacionamento entre organizações e a sociedade em uma época de grande demanda de bens e serviços por parte do mercado e pouca oferta de bens e serviços pelas empresas.

A concorrência - hoje globalizada, mais os problemas sociais e ambientais, muitos deles gerados pela atividade empresarial - estourou com esse modelo minimalista de comunicação e atuação empresarial.

Atualmente, a empresa é muda ou minimalista em sua comunicação por razões políticas e de planejamento. E, quando fala, o faz a partir de muito treinamento de porta-vozes e de seus executivos. Logo, em um mundo em que a empresa precisa conquistar a confiança de consumidores, autoridades, comunidades, imprensa, entre outros interlocutores, a palavra empresarial pensada e o silêncio valem ouro.

A comunicação empresarial administrada com a sociedade e com os mercados tem na publicidade bons exemplos. Um deles, os anúncios da caneta Bic, que estão impressos nas grandes revistas semanais brasileiras.

A peça publicitária, produzida em duas páginas, faz a ligação da tradicional canetinha esferográfica de tampa plástica azul, com a história de dois grandes artistas, Gilberto Gil, no anúncio da revista Época, e Millôr Fernandes, no anúncio da revista Veja.

Neles, a caneta Bic fotografada na horizontal, e identificada com os nomes de cada um dos artistas, ocupa, sozinha, as duas páginas impressas em um azul quase neutro e tranqüilo. A idéia, muito simples e eficaz, é expressá-la como uma linha do tempo das carreiras de Gil e de Millôr.

Assim, o corpo-tempo de cada uma das Bic dos anúncios nos mostra, entre outras efemérides importantes para cada um destes artistas, que em 1954, por exemplo, Millôr escreveu Tempo e Contratempo e, em 1967, Gil lançou a música Domingo no Parque.

Mais do que está expresso no anúncio, a Bic se coloca como protagonista, talvez, do momento de criação de cada uma das obras citadas. Imagine Gilberto Gil escrevendo a música Aquele Abraço ou a Expresso 2222, com uma Bic clássica, o que nos faz imaginar também a canetinha de plástico humilde participando de outros grandes momentos da história de nosso mundo, competindo com as canetas tradicionais, das grandes marcas.

O protagonismo social do produto proposto no anúncio da Bic mostra que é possível inserir as empresas, seus ideários, suas atitudes e produtos como elementos de criações transcendentes, que ultrapassam as suas épocas. É só pensar na infinidade de histórias onde objetos como lâminas de barbear, botões, agulhas tiveram algum papel.

O comunicador empresarial culto tem na história da relação da empresa e de seus produtos com os consumidores e a sociedade um bom material para mostrar o valor social da atividade empreendedora. Se a história empresarial é boa, conte-a.

Além disso, a história empresarial, com bons protagonistas, como é o caso da canetinha de plástico, é um bom antídoto para o maniqueísmo contemporâneo, que elegeu a empresa como o inimigo número um da sociedade e da natureza.


Fonte: Por Paulo Nassar, in terramagazine.terra.com.br

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

H2OH! - um produto desacreditado que virou sucesso

O executivo carioca Carlos Ricardo, diretor de marketing da divisão Elma Chips da Pepsico, a gigante americana do setor de alimentos e bebidas, é hoje visto como uma estrela em ascensão no mundo do marketing. Ele é o principal responsável pela criação e pelo lançamento de um produto que movimentou, de forma surpreendente, o mercado de bebidas em 11 países. A princípio, pouca gente fora da Pepsi e da Ambev, empresas responsáveis por sua produção, colocava fé na H2OH!, bebida que fica a meio caminho entre a água com sabor e o refrigerante diet. Mas em apenas um ano a H2OH! conquistou 25% do mercado brasileiro de bebidas sem açúcar, deixando para trás marcas tradicionais, como Coca-Cola Light e Guaraná Antarctica Diet. Além dos números de vendas, a H2OH! praticamente deu origem a uma nova categoria de produto, na qual tem concorrentes como a Aquarius Fresh, da Coca-Cola, e que já é maior do que segmentos consagrados, como os de leites com sabores, bebidas à base de soja, chás gelados e su...

Funcionários da Domino´s Pizza postam vídeo no You Tube e são processados

Dois funcionários irresponsáveis imaginam um vídeo “muito engraçado” usando alimentos e toda sorte de escatologia. O cenário é uma cozinha da pizzaria Domino´s. Pronto, está feito o vídeo que mais chamou a atenção da mídia americana na semana passada. Nele, os dois funcionários se divertem enquanto um espirra na comida, entre outras amostras de higiene pessoal. Tudo isso foi postado no you tube no que eles consideraram “uma grande brincadeira”. O vídeo em questão, agora removido do site, foi visto por mais de 930 mil pessoas em apenas dois dias. (o vídeo já foi removido, mas pode ser conferido em trechos nesta reportagem: http://www.youtube.com/watch?v=eYmFQjszaec ) Mas para os consumidores da rede, é uma grande(síssima) falta de respeito. Restou ao presidente a tarefa de “limpar” a bagunça (e a barra da empresa). Há poucos dias, Patrick Doyle, CEO nos EUA, veio a público e respondeu na mesma moeda. No vídeo de dois minutos no You Tube, Doyle ( http://www.youtube.com/watch?v=7l6AJ49xNS...

Doze passos para deixar de ser o “bode expiatório” na sua empresa

Você já viu alguma vez um colega de trabalho ser culpado, exposto ou demitido por erros que não foi ele que cometeu, e sim seu chefe ou outro colega? Quais foram os efeitos neste indivíduo e nos seus colegas? Como isso foi absorvido por eles? No meu trabalho como coach, tenho encontrado mais e mais casos de “bodes expiatórios corporativos”, que a Scapegoat Society, uma ONG britânica cujo objetivo é aumentar a consciência sobre esta questão no ambiente de trabalho, define como uma rotina social hostil ou calúnia psicológica, através da qual as pessoas passam a culpa ou responsabilidade adiante, para um alvo ou grupo. Os efeitos são extremamente danosos, com conseqüências de longo-prazo para a vítima. Recentemente, dei orientação executiva a um gerente sênior que nunca mais se recuperou por ter sido um dia bode expiatório. John, 39 anos, trabalhou para uma empresa quando tinha algo em torno de 20 anos de idade e tudo ia bem até que ele foi usado como bode expiatório por um novo chefe. De...