Há uma década, o mineiro Salim Mattar, fundador e presidente da Localiza, maior locadora de carros do país, enfrentou de perto o risco mais temido por qualquer empreendedor: ver sua empresa desaparecer. Num negócio em que escala é vital, Mattar não conseguia dinheiro para aumentar sua frota. "Vivíamos no país da escassez de crédito, juros muito altos e prazos curtíssimos", diz ele. "Um cenário nada animador." Mattar tinha uma dívida de 150 milhões de dólares -- equivalente à metade do faturamento de sua companhia na época. A salvação veio pelas mãos do banco de investimentos americano DLJ, incorporado mais tarde pelo Credit Suisse First Boston, que pagou 50 milhões de dólares por um terço de participação na empresa, em 1997. A Localiza foi uma das primeiras companhias brasileiras a se beneficiar do que era uma novidade por aqui até então -- o investidor de risco. Hoje, dez anos mais tarde, para empresas do tamanho da Localiza, o maior desafio não é mais conseguir recursos. Além do aporte de capital externo, que ajudou a equilibrar as contas da empresa, a locadora também captou 265 milhões de reais ao abrir seu capital, em maio de 2005. "A questão crucial hoje é crescer", diz Mattar, que detém 20% de participação do mercado.
O contraste entre os dois momentos da história da Localiza representa a mudança radical pela qual passou o cenário brasileiro na última década. Os problemas que tiram o sono de empresários e executivos no país são tão ou mais complexos quanto os do passado -- mas ilustram uma substancial melhora no ambiente de negócios. Um levantamento feito por EXAME com 15 presidentes de grandes empresas (como CPFL, IBM, Serasa, Azaléia, Promon e Klabin) mostra que, nesse período, o capitalismo brasilei ro se livrou de antigas amarras como o estatismo e foi apresentado pela primeira vez a um mercado de capitais exuberante, acesso a investidores de capital de risco e também ao jogo da concorrência global. Todos os entrevistados apontaram a falta de dinheiro como um dos principais entraves do passado. "Como os juros estavam altos, começamos a financiar nossos imóveis; caso contrário, não venderíamos nada", afirma Meyer Nigri, fundador e presidente do conselho da construtora Tecnisa. Hoje, as opiniões se dividem entre uma miríade de novas situações -- da ascensão de novas classes consumidoras a negócios voltados para o combate ao aquecimento global. "O país tem estabilidade e previsibilidade, o que cria uma realidade diferente para as empresas e abre um mar de oportunidades", diz Maílson da Nóbrega, ex-ministro da Fazenda e sócio da consultoria Tendências. "Se no passado a meta já foi sobreviver ao caos inflacionário, o desafio agora é sobreviver à competição."
Nenhum novo desafio é hoje tão inquietante para os executivos ouvidos por EXAME quanto a globalização. Para a Embraer, por exemplo, manter-se competitiva num contexto internacional representou tomar um passo ousado e inédito em mais de 37 anos de história: montar aviões fora do país e não apenas exportar a produção nacional. A primeira fábrica da companhia no exterior, instalada na cidade de Harbin, na China, começou a operar em 2002. A guinada na estratégia da Embraer é também simbólica de uma mudança de atitude pela qual passaram as empresas no Brasil nos últimos dez anos. "Elas se convenceram de que não vai haver mágica", afirma Maílson. "E estão indo à luta porque sabem que nem a taxa de juros ou o regime cambial serão colocados no nível que elas gostariam, no ritmo que elas gostariam."
A evolução da economia na última década acabou provocando um fenômeno curioso -- boa parte das restrições do cenário de negócios do passado reverteu-se em oportunidades. O exemplo mais eloqüente disso é o mercado brasileiro de informática -- em que uma demanda praticamente inexistente deu lugar a um mercado em ascensão. Há dez anos, o dilema do grupo Positivo, com sede em Curitiba, era fazer crescer sua divisão de informática. A empresa já vendia para o governo, mas os consumidores comuns recorriam ao mercado cinza, composto de máquinas montadas com componentes ilegais e software pirateado. Hoje, com a retração da informalidade e o aumento do consumo de computadores (por causa do dólar baixo, da facilidade de financiamento e da isenção de PIS e Cofins) -- o que perturba os executivos da empresa é o grande número de concorrentes nesse mercado no Brasil. Na busca por diferenciar o seu produto, a Positivo tem estudado o comportamento dos consumidores, sobretudo os da classe C, onde depositam as apostas de crescimento. "Há dois anos começamos a ir à casa dessas pessoas para entender de que maneira elas usam o computador e o que podemos fazer para tornar o nosso mais atraente que os dos concorrentes", diz Oriovisto Guimarães, presidente do grupo Positivo. Segundo ele, os primeiros PCs com base nessas pesquisas etnográficas (cujos detalhes a companhia não revela), serão fabricados em 2008.
A busca por oportunidades com os consumidores da baixa renda, aliás, é comum a várias empresas. A operação brasileira da Basf, uma das maiores empresas químicas do mundo, também tem investido para adaptar suas tecnologias às demandas da população de países emergentes. A partir de meados de 2008, a companhia começará a vender no país o Neopor, um tipo de bloco de poliestireno para a construção civil. Na Europa, o produto é usado para melhorar o isolamento térmico das casas. No Brasil, será oferecido às construtoras que estão explorando o mercado de moradias populares para a classe C com outra finalidade: reduzir o tempo de execução das obras. Além disso, sua instalação não exige conhecimento técnico, característica importante num país onde falta mão-de-obra qualificada. "Há uma diretriz clara da matriz para pensarmos em produtos mais adequados à realidade local", diz Rolf-Dieter Acker, presidente da Basf para a América do Sul.
Um sinal característico dos novos tempos, como as entrevistas realizadas por EXAME mostraram, é a rapidez com que novas tendências e oportunidades surgem. Nenhuma delas é tão poderosa como a ameaça do aquecimento global -- que não estava no radar de negócios dez anos atrás. Mais recentemente, grandes empresas mundo afora estão descobrindo que os desafios impostos pelas mudanças climáticas também escondem oportunidades. "A sustentabilidade está na cabeça dos formuladores de políticas e vai ditar como nossos negócios terão de ser estruturados daqui para a frente", diz Adilson Primo, presidente da operação brasileira da Siemens, que tem investido não só para melhorar a eficiência energética de suas termelétricas a gás, como apostado no desenvolvimento de tecnologias para capturar e armazenar carbono. "E as vantagens virão para quem souber entrar no jogo".
OS PROBLEMAS MUDARAM - PARA MELHOR
Os seis principais desafios dos presidentes de empresas hoje e há uma década, segundo levantamento realizado por EXAME:
Oriovisto Guimarães, presidente do grupo Positivo
- Informalidade
- Combater a informalidade do setor de informática e expandir o mercado
- Novos consumidores
- Aumentar a participação dos computadores da empresa na classe C
Salim Mattar, fundador e presidente da Localiza
- Escassez de crédito
- Conseguir capital para expandir os negócios
- Consolidação
- Liderar a consolidação do mercado de locação de veículos, altamente pulverizado
Laércio Cosentino, presidente da Totvs
- Abertura do mercado
- Lidar com a chegada ao Brasil de concorrentes de grande porte
- Globalização
- Entender as necessidades dos clientes, hoje espalhados em 12 países
André Biaggi, presidente do conselho de administração da Santelisa Vale
- Baixa demanda
- Gerenciar os baixos preços do açúcar e do álcool
- Novas oportunidades
- Preparar-se para o possível aumento da demanda de etanol
Paulo Bellini, fundador e presidente do conselho da Marcopolo
- Profissionalização
- Iniciar a profissionalização da empresa, até então gerida por familiares
- Expansão
- Produzir cada vez mais nos mercados consumidores, em vez de exportar do Brasil
Rolf-Dieter Acker, presidente da BASF para América do Sul
- Reestruturação
- Vender divisões e redefinir um foco para os negócios
- Sustentabilidade
- Adaptar produtos e serviços às ameaças do aquecimento global
Fonte: Por Ana Luiza Herzog, in portalexame.abril.com.br
O contraste entre os dois momentos da história da Localiza representa a mudança radical pela qual passou o cenário brasileiro na última década. Os problemas que tiram o sono de empresários e executivos no país são tão ou mais complexos quanto os do passado -- mas ilustram uma substancial melhora no ambiente de negócios. Um levantamento feito por EXAME com 15 presidentes de grandes empresas (como CPFL, IBM, Serasa, Azaléia, Promon e Klabin) mostra que, nesse período, o capitalismo brasilei ro se livrou de antigas amarras como o estatismo e foi apresentado pela primeira vez a um mercado de capitais exuberante, acesso a investidores de capital de risco e também ao jogo da concorrência global. Todos os entrevistados apontaram a falta de dinheiro como um dos principais entraves do passado. "Como os juros estavam altos, começamos a financiar nossos imóveis; caso contrário, não venderíamos nada", afirma Meyer Nigri, fundador e presidente do conselho da construtora Tecnisa. Hoje, as opiniões se dividem entre uma miríade de novas situações -- da ascensão de novas classes consumidoras a negócios voltados para o combate ao aquecimento global. "O país tem estabilidade e previsibilidade, o que cria uma realidade diferente para as empresas e abre um mar de oportunidades", diz Maílson da Nóbrega, ex-ministro da Fazenda e sócio da consultoria Tendências. "Se no passado a meta já foi sobreviver ao caos inflacionário, o desafio agora é sobreviver à competição."
Nenhum novo desafio é hoje tão inquietante para os executivos ouvidos por EXAME quanto a globalização. Para a Embraer, por exemplo, manter-se competitiva num contexto internacional representou tomar um passo ousado e inédito em mais de 37 anos de história: montar aviões fora do país e não apenas exportar a produção nacional. A primeira fábrica da companhia no exterior, instalada na cidade de Harbin, na China, começou a operar em 2002. A guinada na estratégia da Embraer é também simbólica de uma mudança de atitude pela qual passaram as empresas no Brasil nos últimos dez anos. "Elas se convenceram de que não vai haver mágica", afirma Maílson. "E estão indo à luta porque sabem que nem a taxa de juros ou o regime cambial serão colocados no nível que elas gostariam, no ritmo que elas gostariam."
A evolução da economia na última década acabou provocando um fenômeno curioso -- boa parte das restrições do cenário de negócios do passado reverteu-se em oportunidades. O exemplo mais eloqüente disso é o mercado brasileiro de informática -- em que uma demanda praticamente inexistente deu lugar a um mercado em ascensão. Há dez anos, o dilema do grupo Positivo, com sede em Curitiba, era fazer crescer sua divisão de informática. A empresa já vendia para o governo, mas os consumidores comuns recorriam ao mercado cinza, composto de máquinas montadas com componentes ilegais e software pirateado. Hoje, com a retração da informalidade e o aumento do consumo de computadores (por causa do dólar baixo, da facilidade de financiamento e da isenção de PIS e Cofins) -- o que perturba os executivos da empresa é o grande número de concorrentes nesse mercado no Brasil. Na busca por diferenciar o seu produto, a Positivo tem estudado o comportamento dos consumidores, sobretudo os da classe C, onde depositam as apostas de crescimento. "Há dois anos começamos a ir à casa dessas pessoas para entender de que maneira elas usam o computador e o que podemos fazer para tornar o nosso mais atraente que os dos concorrentes", diz Oriovisto Guimarães, presidente do grupo Positivo. Segundo ele, os primeiros PCs com base nessas pesquisas etnográficas (cujos detalhes a companhia não revela), serão fabricados em 2008.
A busca por oportunidades com os consumidores da baixa renda, aliás, é comum a várias empresas. A operação brasileira da Basf, uma das maiores empresas químicas do mundo, também tem investido para adaptar suas tecnologias às demandas da população de países emergentes. A partir de meados de 2008, a companhia começará a vender no país o Neopor, um tipo de bloco de poliestireno para a construção civil. Na Europa, o produto é usado para melhorar o isolamento térmico das casas. No Brasil, será oferecido às construtoras que estão explorando o mercado de moradias populares para a classe C com outra finalidade: reduzir o tempo de execução das obras. Além disso, sua instalação não exige conhecimento técnico, característica importante num país onde falta mão-de-obra qualificada. "Há uma diretriz clara da matriz para pensarmos em produtos mais adequados à realidade local", diz Rolf-Dieter Acker, presidente da Basf para a América do Sul.
Um sinal característico dos novos tempos, como as entrevistas realizadas por EXAME mostraram, é a rapidez com que novas tendências e oportunidades surgem. Nenhuma delas é tão poderosa como a ameaça do aquecimento global -- que não estava no radar de negócios dez anos atrás. Mais recentemente, grandes empresas mundo afora estão descobrindo que os desafios impostos pelas mudanças climáticas também escondem oportunidades. "A sustentabilidade está na cabeça dos formuladores de políticas e vai ditar como nossos negócios terão de ser estruturados daqui para a frente", diz Adilson Primo, presidente da operação brasileira da Siemens, que tem investido não só para melhorar a eficiência energética de suas termelétricas a gás, como apostado no desenvolvimento de tecnologias para capturar e armazenar carbono. "E as vantagens virão para quem souber entrar no jogo".
OS PROBLEMAS MUDARAM - PARA MELHOR
Os seis principais desafios dos presidentes de empresas hoje e há uma década, segundo levantamento realizado por EXAME:
Oriovisto Guimarães, presidente do grupo Positivo
- Informalidade
- Combater a informalidade do setor de informática e expandir o mercado
- Novos consumidores
- Aumentar a participação dos computadores da empresa na classe C
Salim Mattar, fundador e presidente da Localiza
- Escassez de crédito
- Conseguir capital para expandir os negócios
- Consolidação
- Liderar a consolidação do mercado de locação de veículos, altamente pulverizado
Laércio Cosentino, presidente da Totvs
- Abertura do mercado
- Lidar com a chegada ao Brasil de concorrentes de grande porte
- Globalização
- Entender as necessidades dos clientes, hoje espalhados em 12 países
André Biaggi, presidente do conselho de administração da Santelisa Vale
- Baixa demanda
- Gerenciar os baixos preços do açúcar e do álcool
- Novas oportunidades
- Preparar-se para o possível aumento da demanda de etanol
Paulo Bellini, fundador e presidente do conselho da Marcopolo
- Profissionalização
- Iniciar a profissionalização da empresa, até então gerida por familiares
- Expansão
- Produzir cada vez mais nos mercados consumidores, em vez de exportar do Brasil
Rolf-Dieter Acker, presidente da BASF para América do Sul
- Reestruturação
- Vender divisões e redefinir um foco para os negócios
- Sustentabilidade
- Adaptar produtos e serviços às ameaças do aquecimento global
Fonte: Por Ana Luiza Herzog, in portalexame.abril.com.br
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