Mas, afinal, onde está o comandante?

Se Voltaire acertou ao dizer que o melhor governo é aquele em que há menos homens inúteis, com toda certeza a melhor equipe é aquela em que há mais membros úteis.

A elaboração de uma estratégia definida é vital para que a empresa continue a crescer. Sem ela, nem mesmo sua simples permanência no mundo dos negócios estará assegurada. Uma estratégia, seja do negócio como um todo ou de um departamento em particular, requer bom diagnóstico da situação da empresa e do mercado, visão de médio a longo prazos, muita disciplina e trabalho. E, acima de tudo, um impecável plano de metas que viabilize sua implantação. Ainda que o planejamento possa ou deva ser o mais participativo possível, é na implantação dos planos que a equipe joga um papel decisivo.

Sun Tzu, em "A Arte da Guerra", preconizava há 2.500 anos que se os regulamentos não estiverem claros o suficiente e as ordens não forem plenamente compreendidas, o erro é do comandante. Se as regras estão claramente definidas e esclarecidas, mas ninguém as segue, a falha é do líder. E mais: se você aprecia as palavras, mas não tem coragem suficiente para colocá-las em prática, algo dará errado.

Mas o que é exercer a liderança? É ser capaz de unificar a empresa em torno de um objetivo comum, tendo à frente uma pessoa dotada de uma conduta exemplar que deriva do caráter nobre e de um comportamento condizente. Líderes devem ser capazes de criar e manter a harmonia entre a equipe e na empresa, em geral. Por isso, talvez seja tão desafiador tornar-se um líder de fato e com sucesso.

Antes de qualquer coisa, é preciso desenvolver o chamado grau de resiliência, ou seja, a capacidade de se adaptar ao ambiente sem mudar sua essência. Um exemplo é quando entramos num cinema quando o filme já iniciou e o ambiente está na penumbra e, então, não enxergamos nada, em princípio. Daí alguns segundos, nossas pupilas se dilatam e conseguimos visualizar o ambiente, apesar da escuridão. Todavia, ao sairmos novamente para um local iluminado, nossas pupilas retornam ao estado habitual. Em suma, é preciso aprender a mudar a forma como se lida com uma situação ao invés de tentar mudá-la, pois muitas vezes forçar a mudança pode ser uma luta inglória.

Já o "ingrediente fundamental" chama-se liderança capaz e talvez aí resida o maior desafio, pois requer superar as fraquezas e desenvolver as virtudes. Por fraquezas, entenda-se imprudência, insegurança, volatilidade, sensibilidade excessiva a críticas. Entre as virtudes temos a integridade, coragem, gentileza, disciplina e sabedoria. Elogios também precisam fazer parte das palavras que um bom líder expressa aos membros da equipe.

E, por fim, tornar-se um canal de informação clara e precisa. Gaudêncio Torquato, especialista em comunicação política e empresarial, no livro "Tratado de Comunicação Organizacional e Política" fala sobre os quatro poderes na comunicação: remunerativo, normativo, coercitivo e expressivo. O autor apóia-se na teoria de que no poder expressivo reside o poder da comunicação, da argumentação, do carisma.

A partir do carisma, constrói-se a eficiência do enunciado, capaz de unificar, integrar e harmonizar os discursos (semântico e estético). Por meio do poder expressivo, o líder tem a habilidade de "energizar" ambientes, atrair simpatia e atenção dos interlocutores. Mas é preciso dosar os quatro tipos de comunicação, pois sem os discursos normativo, coercitivo e remunerativo (de Sun Tzu) corre-se o risco de perder o controle sobre o objetivo comum.

Se não houver entendimento, sinergia, comprometimento e liderança, a equipe não funciona. Colocar todos no mesmo barco (remando para a mesma direção) é básico. Qualquer gerente sabe disso. Mais importante, porém, é fazer com que remem na direção certa. As relações interpessoais, a administração dos egos e todos os problemas que impedem uma equipe de obter a sinergia que só uma equipe pode gerar são também passados a limpo.

São necessários um ambiente favorável, lideranças preparadas e um sistema de recompensas, além de habilidade, pesquisa e paciência para chegar ao dream team. Por onde começar?


Fonte: Por Carlos Alberto Júlio - Presidente da Tecnisa e membro do Conselho de Administração da HSM do Brasil e da Camil Alimentos, in Gazeta Mercantil/Caderno C - Pág. 9
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