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Novos meios, velhos vícios

O que está ocorrendo hoje no campo da distribuição de conteúdo audiovisual é algo sem precedentes na história e muito mais complexo do que uma simples definição pode expressar. As chamadas novas mídias são na verdade novas formas de distribuição — e ponto! Não estamos dando a devida atenção à revolução que está acontecendo dentro da cabeça das pessoas. O gosto está mudando, a forma de adquirir conteúdo está mudando, a difusão também, e está todo mundo preocupado em manter seu quinhão protegido. Uns se protegem nos lobbies no congresso para controlar as leis, outros tentam impor uma ditadura da programação engessada, os responsáveis pelas verbas publicitárias estão agarrados aos institutos de pesquisas e ao recall, pois têm medo de errar, o que é absolutamente compreensível, pois o dinheiro não é deles e eles têm que garantir os resultados e seus empregos.

O “x” está morrendo, pois não basta preencher as tabelas de inserções porque a audiência/consumidor pode não estar “lá”. Ele está cheio de opções e está mais senhor de si do que nunca, pois escolhe, distribui, colabora, interage e simplesmente desliga quando se enche. Quando preparava o lançamento da Oi, disse que o consumidor não queria saber de tecnologia. Acharam que eu estava louco. Mostramos que o que menos importa para o consumidor é a tecnologia e que a marca e a idéia que esta por trás dela é o que realmente conta. “Entregar” tecnologia não passa de obrigação. É uma commodity.

O que podemos oferecer aos jovens consumidores que estão trocando informações em escala planetária? O que podemos “dizer” a essa geração que já nasce com o mouse na mão? As novas mídias em si não darão conta de sustentar o negócio da produção e difusão como um todo.

Os veículos tradicionais parecem que simplesmente não querem entender e atender aos novos gostos. O movimento de impor gosto está fragilizado pela enorme fragmentação/segmentação do público que forma uma rede, inalcançável pelos métodos de medição dos institutos de pesquisa. A audiência tem que ter a opção de interagir para ficar na frente de qualquer monitor, seja ele PC, TV ou celular. Estamos saindo da era da audiência passiva e entrando na era da audiência que dialoga e colabora.

A interatividade é também uma expressão bastante em voga, mas o tipo de interação que o jovem consumidor quer não é ofertado com muita freqüência. Estou falando de possibilidade de interação “cirúrgica”, que leve em consideração não a audiência, e sim uma “nanoaudiência” que obviamente se juntaria a milhares de nanoaudiências, formando massa crítica dentro de um mesmo veículo. Um exemplo concreto disso é o YouTube.

Não podemos abandonar a realidade e desconsiderar os investimentos e os retornos que as mídias massivas dão, mas a audiência e o retorno vêm caindo ano a ano e, paradoxalmente, os investimentos não estão sendo redistribuídos com a mesma velocidade. Será que teremos que esperar os jovens consumidores se tornarem os tomadores de decisão para que os investimentos realmente permeiem as novas mídias? Ou estamos achando que essa onda vai passar, que tudo vai voltar ao normal e que a tabela de inserções vai voltar com umas coluninhas a mais?

É irreversível, e a velocidade é vertiginosa, portanto. É hora de começarmos a nos preocupar e atender aos senhores do negócio. Por falar em velocidade, na semana passada li que o sistema HD DVD perdeu a briga para o Blu-ray. A briga durou meses, e a batalha do Betamax com o VHS durou anos na década de 80. Pois é... É disso que estou falando, não adianta injetar grana para forçar uma posição. Temos que ser flexíveis e entender que não haverá espaço para monopólio de conteúdo ou distribuição. A nova geração é extremamente refratária a isso. Basta ver o tamanho das comunidades em torno dos programas de código aberto como o Linux, ou outras muitas iniciativas de colaboração em rede.

Nessa coluna de estréia, quero deixar claro que ficarei à vontade para dizer o que penso, pois me sinto parte dessa geração que compartilha informação e que é dona da suas idéias e de toda a cadeia de distribuição dessas. Estou muito mais preocupado em estimular o debate e expor o surgimento do que é realmente inovador e que muitas vezes fica escondido por de trás de uma nuvem de termos técnicos, estrangeirismos e interesses monopolistas e obviamente conservadores e que nada têm a ver com o que é realmente importante: tocar as pessoas, dar o que elas querem, entender seus sonhos e desejos e fazer da tecnologia um simples meio e não a coisa mais importante.

Aproveito para dizer que não tenho visto muita coisa interessante na propaganda brasileira. Estamos vivendo uma crise criativa ou um “gap” momentâneo?

Hoje está cada vez mais difícil ver algo novo no mundo da propaganda. Em compensação, achamos pérolas de criatividade e adequação no YouTube feitas por jovens e suas câmeras de 500 reais. Será que estamos vendo e ouvindo o que eles estão nos mostrando?


Fonte: Por Alberto Blanco - CEO da Participe TV, in www.meioemensagem.com.br

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