Presidentes pagam alto preço pelo poder

Tudo na vida tem o seu preço. Inclusive ser o principal de uma grande companhia. Esta é a conclusão da pesquisa "Contexto dos Presidentes", realizada pelo Centro de Tecnologia Empresarial (CTE), da Fundação Dom Cabral (FDC), junto aos líderes de 40 empresas, que compõem o grupo das 500 maiores e melhores do País.

O estudo apontou que a chegada e a permanência no topo da empresa trouxe aos executivos várias conseqüências negativas. Em um questionário de múltipla escolha, os principais fatores apontados pelos pesquisados foram o sedentarismo (70%), o adiamento de realizações pessoais (54%), problemas no relacionamento familiar e comprometimento da saúde (ambos com 39%), além de distúrbios do sono (23%) e instabilidade emocional (23%).

Conforme o levantamento, embora sintam-se orgulhosos de ter atingido o posto máximo em suas corporações, quatro em cada cinco executivos (80% do total) admitem ter uma enorme frustração pelo adiamento de projetos e sonhos no campo pessoal. "As pessoas, para atuarem no mundo corporativo, precisam de alguma maneira fazer escolhas. E qualquer escolha que a gente faça na vida, envolve renúncias", explica a professora da FDC e diretora-executiva da consultoria Lens & Minarelli, Mariá Giuliese, uma das responsáveis pela pesquisa.

Segundo ela, tais renúncias são ainda maiores para os executivos que buscam chegar à presidência de uma companhia. "Para poder atingir os objetivos, as metas e o sucesso e ainda manter o poder, eles têm de abrir mão de coisas preciosas para eles", afirma Mariá. "Mas esse ato de abrir mão não é consciente para eles ou, em outros casos, eles acham que a relação custo/benefício vale a pena e só vão perceber mais tarde o que perderam. Só que aí não dá para voltar atrás", comenta.

O homem por trás do gestor
Junto com o rastreamento e mapeamento das práticas adotadas pelos presidentes na condução dos negócios, o levantamento também focou aspectos do indivíduo, tais como crenças, valores e modo de agir no que tange a trabalho, carreira, família, participação na sociedade e visão de mundo. Além da aplicação de um questionário, também foram realizadas entrevistas pessoais com os profissionais consultados.

Como complemento, os pesquisadores ainda observaram a exposição e os depoimentos dos executivos na mídia impressa. "Pudemos perceber que, no questionário e no início das entrevistas pessoais, a postura adotada foi a de fornecer respostas ideais, em consonância com as principais linhas teóricas de gestão de negócios e de pessoas e, sobretudo, compatíveis com os preceitos do mercado e das organizações que esses executivos dirigem", informa Mariá Giuliese.

Por outro lado, segundo ela, no decorrer do estudo, foi possível obter uma imagem mais clara do universo dos pesquisados. "Aprofundando o contato, trouxemos à tona o ser humano que fica encoberto pelo personagem que é assumido em função do cargo, verificando que há um importante nível de sofrimento e frustração pelo sistemático adiamento de projetos e sonhos pessoais, sempre postergados em prol das demandas do mundo corporativo."

No universo consultado, a predominância é de profissionais na faixa dos 51 aos 60 anos (56%). Outros 41% têm entre 41 e 50 anos. Os presidentes que têm menos de 40 anos significam apenas 3% do total. Conforme a pesquisa, a maioria dos executivos já atuou em, no mínimo, quatro empresas, com mais de oito anos na função de principal gestor. Além disso, características como pós-graduação latu sensu, experiência internacional e inglês fluente estão presentes entre os consultados - 77% deles também se comunicam em espanhol.

Da infância pobre ao ápice
Três em cada cinco presidentes (60%) afirmaram que o sucesso, o poder e o status foram as razões determinantes para que perseguissem o cargo de primeiro mandatário. Outros 60% apontaram a infância limitada por dificuldades econômicas como fator de estímulo para a busca de prestígio e ascensão social e profissional.

Na opinião de Mariá Giuliese, os presidentes estão cada vez mais solitários e isolados em seus universos. "O medo de serem excluídos, destituídos do cargo que ocupam e de perderem o poder e a visibilidade que adquiriram funciona como fator de pressão e opressão para que evitem, a qualquer custo, se opor ao establishment", avalia.

O professor Léo Bruno, também responsável pela pesquisa, cita a interface com os altos escalões como outra grande fonte de estresse para os presidentes. Segundo o estudo, buscando não se comprometer e evitar o risco de ser destituído do cargo, o principal executivo da companhia comparece ao Conselho Administrativo mais com o objetivo de dar satisfações do que para compartilhar problemas e eventualmente pedir ajuda.

Outro fator de desgaste para os mandatários é a própria globalização, que interfere na sua privacidade, exigindo, por exemplo, que os canais de comunicação permaneçam abertos a qualquer hora do dia ou da noite - em função do fuso horário. Com isso, o profissional acaba levando os negócios para dentro de sua casa, o que interfere nas relações e nas rotinas familiares. "A globalização diminuiu o poder que esses executivos detinham, e esse esvaziamento contribui para o sentimento de frustração", finaliza Mariá Giuliese.


Fonte: Por Marcelo Monteiro, in Gazeta Mercantil/Caderno C - Pág. 9
0