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A "síndrome de freezer news"

Quem lê apenas um jornal ao dia, não está, certamente, percebendo um fenômeno cada vez mais comum na mídia brasileira: a publicação retardada de determinadas notícias, ou seja, aquela novidade que está na Folha desta segunda-feira poderá ter sido publicada no Estadão ou em O Globo na semana passada e vice-versa.

Alguém poderia argumentar que o fato ocorre porque os veículos não assinam as mesmas agências de notícias e, portanto, recebem a informação de fontes diversas em tempos também distintos. Mas isso não é verdade. As fontes são as mesmas, sobretudo se estivermos nos referindo às agências internacionais; logo as notícias chegam simultaneamente às várias redações.

Se um veículo publica uma notícia hoje e outro, a mesma notícia amanhã é porque alguém resolveu ressuscitar a informação que havia entrado em colapso (sido descartada) no dia anterior. Mas isso é normal? Ou ainda: isso é um bom sinal?

De há muito, temos percebido que a mídia brasileira anda padecendo da síndrome conhecida como "freezer news", uma doença que acomete as redações que vivem a reboque do noticiário, em especial aquele originado no estrangeiro. Uma doença que encontra terreno fértil em determinadas páginas ou editorias, como a de ciência ou internacional, por exemplo. Uma doença que pode contaminar toda a redação e cujo sintoma mais evidente é um sentimento de "coisa fria", percebida imediatamente pelo leitor (é claro, por aquele que lê mais de um jornal). A primeira pergunta que vem à cabeça de quem flagra a ocorrência de uma "freezer news" é: mas essa notícia já não foi publicada antes? Por que o jornal a está veiculando apenas agora? Está faltando notícia nas redações?

É fácil constatar que os veículos andam se repetindo escandalosamente todos os dias porque, cada vez mais, as redações ouvem as mesmas fontes, freqüentam as mesmas coletivas e reproduzem ou requentam os mesmos releases, chegando ao disparate (alguém pode achar que uma forma particular de telepatia jornalística!) de "perpetrar" os mesmos títulos ou manchetes.

A pista do aeroporto de Guarulhos exibia uma condição lamentável , mas a imprensa não poderia mesmo saber disso porque estava toda ela atrás das mesmas fontes, abrigadas em ambientes refrigerados de Brasília, correndo freneticamente atrás de figurinhas carimbadas (parlamentares e diretores da Anac) e, portanto, reproduzindo as mesmas versões oficiais.
A ciência brasileira continua sendo desenvolvida com competência nas universidades e nos institutos de pesquisa, mas a imprensa nunca está lá e, portanto, não tem notícia fresca e relevante para incluir nas páginas de ciência. Por este motivo, tome "freezer news", aquela notícia que ficou guardada de anteontem ou da semana passada. O editor deve imaginar: "ciência é coisa fria mesmo e ninguém lê mais de um jornal por dia, portanto não vai notar que vamos publicar uma coisa requentada".

Era de se esperar que, com o advento da internet, que permite a publicação imediata das notícias, os jornais adotassem uma nova postura e se dedicassem a interpretar, a analisar os fatos, extrapolando os limites da mera publicação de notícias. Mas seria pedir demais para uma estrutura que anda cada vez mais enxuta, cada vez menos investigativa e mais preocupada em agradar os anunciantes do que em qualificar a informação que entrega para os seus leitores.

A "síndrome de freezer news" tenderá a se tornar mais dramática, se os veículos continuarem contratando contatos de publicidade ao mesmo tempo em que demitem jornalistas. Se as redações continuarem confortavelmente pautando as suas matérias a partir das fontes oficiais , copiando as agências e colocando-se como reféns das assessorias de comunicação das entidades e empresas, os jornais continuarão cada vez mais iguais e menos interessantes.

A "síndrome de freezer news" está esfriando a cobertura e envelhecendo os veículos antes mesmo que eles cheguem aos seus leitores . Por este motivo é de esperar que a audiência dos jornais e revistas tenda mesma a se reduzir. Cria-se, então, o já sabido círculo vicioso: menos leitores, maior vulnerabilidade da mídia e, com isso, a tentativa desesperada de obter receita com outros produtos (coleções de enciclopédias, DVDs , mochilas e camisetas), abrindo mão da informação qualificada, essência do bom jornalismo.

A "síndrome de freezer news" tem a ver com o crescimento do departamento comercial dos veículos e com o enxugamento das redações; representa a porta aberta para o equivocado "merchandising jornalístico", eufemismo para designar o "jabaculê" tradicional agora travestido com as "maravilhas do marketing editorial".

O jornalismo de verdade tem de ser quente, que é a temperatura ideal para a boa divulgação dos fatos e para a investigação competente. Jornalismo frio ou requentado não faz bem, incomoda e nada acrescenta. É como pastel ou pizza de bar à beira de estrada: não tem recheio e inclui produtos pouco confiáveis.

Todos aqueles (é o seu caso?) que lêem apenas um jornal ao dia podem estar consumindo, sem saber, "novidades antigas". O pior é que a "síndrome de freezer news" contamina também os leitores. Quando a doença pega, eles perdem a capacidade de reconhecer o que é notícia quente, fria ou requentada. Aceitam qualquer coisa. Em casos mais dramáticos, podem até justificar a existência das matérias pagas e imaginar que elas fazem parte do jornalismo moderno. Leitores com a "síndrome de freezer news" adoram os nefastos "publieditoriais" e esperam ansiosos os cadernos de "projetos de mercado". Acham criativa a inserção de um embalagem de chocolate no meio das colunas de texto e adoram revista com sobrecapa, com o anúncio cobrindo as chamadas. Devem achar "supimpa" o anúncio de uma indústria farmacêutica que não respeita ao menos a seção das cartas de leitores da revista Pesquisa Fapesp (os ambientalistas chamam isso de espécies exóticas ou invasoras!).

Em tempo: há cura para a "síndrome de freezer news": competência, investigação, profissionalismo e respeito ao leitor são remédios indicados e não têm efeitos colaterais. Vai ver que eles estão em falta no mercado.


Fonte: Por Wilson da Costa Bueno, in portalimprensa.uol.com.br

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