O renascimento do Vale do Silício e a ascensão da web 2.0

A rede social Facebook tem valor estimado em 15 bilhões de dólares. O Slide, serviço para compartilhar fotos na internet, é visitado por cerca de 134 milhões de pessoas por mês. Voltado apenas para executivos, o site de relacionamentos LinkedIn tem mais de 20 milhões de usuários registrados. O que essas três empresas têm em comum — além de ser algumas das novas estrelas da web — é o fato de ter sido fundadas por jovens que nadaram contra a maré e apostaram na internet mesmo após o estouro da bolha no ano 2000. A história desses e de outros empreendedores é contada no livro Once You’re Lucky, Twice You’re Good — The Rebirth of Silicon Valley and the Rise of Web 2.0 (“Na primeira vez, você é sortudo, na segunda, você é bom — O renascimento do Vale do Silício e a ascensão da web 2.0”, em tradução livre e ainda sem previsão de lançamento no Brasil), escrito pela jornalista americana Sarah Lacy. O livro traz relatos sobre a criação de algumas das novas sensações da internet, desde as dificuldades para levá-las ao ar até o dilema de vender ou não negócios milionários. Além de colocar o leitor em contato com alguns protagonistas do principal pólo tecnológico do mundo, Sarah acaba dando uma lição de como montar uma empresa na web.

A relação de Sarah Lacy com o Vale do Silício é antiga. Há dez anos a jornalista mergulhou no universo das empresas da Califórnia, recentemente como colunista do site da revista Business Week. Para escrever o livro, passou 18 meses entrevistando, tomando café, jantando, assistindo a palestras e indo a festas com os novos nomes de sucesso da indústria de tecnologia mais vibrante do mundo. Jovem como os empresários perfilados, Sarah conseguiu arrancar deles histórias pouco conhecidas, que dizem muito sobre suas ambições, dúvidas e, claro, seus negócios. Alguns deles mantêm uma reclusão pouco saudável: Marc Andreessen, co-fundador do Netscape, o primeiro browser da internet como se conhece hoje, fez do Vale do Silício sua casa e não fala com a família há anos. Outros são metódicos ao extremo. Mark Zuckerberg, que abandonou os estudos em Harvard para investir no Facebook, chegou a negociar horários para ver a namorada: o trato era de um único encontro semanal. Max Levchin, fundador do site Slide e do sistema de pagamento eletrônico PayPal, é determinado desde a infância. Quando imigrou com a família para os Estados Unidos, aos 9 anos, saindo da Ucrânia, aprendeu inglês repetindo as falas de um seriado numa TV que pegou num lixão. Esses detalhes são fundamentais para o livro. “A cultura de qualquer start-up emana de seus fundadores”, escreve Sarah.

As histórias contadas no livro interessam a quem tem curiosidade em conhecer mais de perto aquele que é, sem dúvida, o ambiente de negócios mais acelerado do mundo. O objeto do livro são as companhias da recente onda da web 2.0, marcada pelos sites cujo conteúdo é gerado e editado pelos usuários. Essa nova onda de companhias, segundo Sarah, nasceu num vácuo após o estouro da bolha do fim dos anos 90. Não houve intervenção dos investidores que inflaram artificialmente a primeira geração de empresas da internet. A nova safra é diferente e é um reflexo dos jovens que as criaram. “Em sua maioria, eram sites de redes sociais construídos para os fundadores e seus amigos”, escreve a autora, “e que acabaram se tornando empresas.” Para a jornalista, as novas companhias podem não ter o mesmo impacto econômico daquelas da primeira onda da internet (em 1999, 270 empresas bancadas por investidores abriram o capital levantando 21 bilhões de dólares), mas certamente terão um impacto social maior.

Esse é outro motivo pelo qual a leitura é interessante para o público que não necessariamente acompanha as últimas novidades do mundo da internet. Muitas das empresas dissecadas nas páginas de Once You’re Lucky são grandes campeãs de audiência e têm influenciado de forma decisiva as indústrias da mídia e do entretenimento. Seus fundadores, muitos deles na casa dos 20 anos, são considerados sucessores naturais dos grandes nomes do Vale do Silício. Um deles é Kevin Rose. Criador do site de compartilhamento de notícias Digg, Rose já foi cortejado por Rupert Murdoch, o magnata da News Corp., e pelo ex-vice-presidente americano Al Gore. Ambos sondaram o Digg sobre possíveis vendas ou associações, mas Rose resistiu ao assédio. As estimativas sobre o valor de sua empresa já passam de 100 milhões de dólares. Parte do sucesso estrondoso do serviço idealizado por Rose é a mistura de gerações empreendedoras. A proximidade dos veteranos é fundamental para o sucesso dos novatos. Sarah cunha a palavra friend-tors, mistura de amigo, mentor e investidor. “Esses friend-tors ensinaram aos mais jovens lições que tinham aprendido na marra.” Uma dessas lições diz respeito aos fundos de capital de risco. Jay Adelson, mentor de Rose e presidente do Digg, tem aversão aos investidores institucionais desde que foi defenestrado de uma empresa que fundou no final dos anos 90. Certamente influenciado pela experiência de Adelson, Rose preferiu manter o Digg sob seu controle, pelo menos por enquanto.

O público brasileiro talvez sinta falta de algumas empresas mais conhecidas por aqui. Sites como Wikipédia e Second Life não são abordados, e há apenas pinceladas sobre o Google, o YouTube e o Skype. Também não há menção ao Orkut, do Google. Para acompanhar o livro, não é necessário conhecer a fundo a web 2.0, mas a leitura fica mais fácil para quem tem noção do que é Facebook ou MySpace. Também pode ficar decepcionado quem levar o título ao pé da letra. Apesar de fazer menção aos empreendedores persistentes, muitos dos retratados são marinheiros de primeira viagem ou ex-funcionários de companhias da era 1.0. Dos principais personagens, apenas parte fundou mais de uma empresa. Nesse rol, estão Max Levchin, que tenta fazer do Slide um negócio maior do que o PayPal, vendido para o site de leilões eBay por 1,5 bilhão de dólares em 2002, e Marc Andreessen, que está a caminho de sua terceira empresa de 1 bilhão de dólares, com o Ning, site para que qualquer pessoa crie sua própria rede social, fundado em conjunto com Gina Bianchini. Para Sarah, a razão do sucesso desses empreendedores em série não pode ficar restrita à sorte, ao talento ou ao dinheiro. O atributo mais importante, argumenta a autora, é a criatividade.

As histórias trazem ainda outros dilemas comuns a qualquer empresário, como a decisão sobre que saída dar à start-up. Os fundadores ficam divididos entre abrir o capital ou vender a empresa. De um lado, têm medo de perder o controle, de outro não querem abrir mão de um projeto de anos. Outro perfil muito interessante é o do nontrepreneur, o criador de empresas que prefere ter idéias a tocar os negócios adiante. Entre eles está Evan Williams, criador do Blogger e, mais recentemente, do Twitter, e os criadores da ferramenta de postagem para blogs Movable Type, Mena e Ben Trott. Os três contrataram presidentes para comandar suas empresas, enquanto se dedicam a criar. Em alguns trechos, Sarah discute se há uma nova bolha em formação. Para ela, os altos e baixos são a regra do jogo no pólo californiano. Mesmo que seja esse o caso, não chega a ser um problema. “Se a ascensão da web 2.0 das cinzas após o estouro da bolha nos ensinou alguma coisa, é que o Vale do Silício dificilmente fica tão arrasado que as coisas nunca se levantam novamente.”


Fonte: Por Denise Dweck, in portalexame.abril.com.br
0