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Prefeito administra a cidade como uma empresa

Vitor Lippi, prefeito de Sorocaba, tem uma noção elástica do tempo. Se a conversa está boa, ou se considera o tema interessante, ele não hesita em estender um encontro além - ou, melhor, muito além - do horário previsto. Isso exaspera seus auxiliares, mas não o impede, paradoxalmente, de estar à frente de uma das experiências mais dinâmicas de gestão pública no Brasil, que tem como destaque, justamente, a rapidez dos serviços prestados pela prefeitura. Lippi quer que a máquina municipal de Sorocaba, cidade de 580 mil habitantes situada a 87 quilômetros de São Paulo, funcione como empresa. Quando sentou na cadeira, em 2005, reuniu os secretários e passou sete meses estabelecendo o planejamento estratégico de seu mandato. Elegeram-se 166 projetos prioritários, com metas e prazos de cumprimento. Sessenta servidores foram selecionados para aprender gestão, e sete profissionais externos foram contratados para coordenar as ações da prefeitura. Os resultados, agora, começam a aparecer:

>>> O tempo de abertura de uma empresa na cidade foi reduzido de 120 para 15 dias.

>>> Os 5 mil "procedimentos internos" da prefeitura foram reduzidos a 158, com ganho de eficiência.

>>> Taxas municipais antiquadas, com valor de R$ 2 ou R$ 3, foram simplesmente abolidas.

>>> Atividades como cabeleireiro, que não exigem diploma universitário, foram isentas de ISS.

Essas medidas, que acabam por beneficiar e incentivar o empreendedorismo, surgiram, curiosamente, na gestão de alguém que não tem alma de empresário. Lippi é um médico dermatologista cujas feições, o corte de cabelo e até o jeito meio idealista fazem lembrar não o médico Drauzio Varella, mas o ator Luiz Carlos Vasconcelos, que o encarnou no filme Carandiru. Alto e corpulento (tem 1,85 metro e 90 quilos), seus lábios parecem estar sempre a meio caminho de um sorriso. Na época da faculdade de medicina, cursada no Rio de Janeiro, colegas o comparavam a um padre, de tão "certinho". Todos os pacientes queriam se tratar com o recém-formado, que puxava a cadeira para que eles se sentassem. Foi num hospital da cidade que conheceu a também dermatologista Denise, com quem é casado há 22 anos e tem dois filhos. Faz 11 anos que não exerce a medicina. Trocou o estetoscópio pela política, na qual ingressou como vereador em 1989. Cumpriu dois mandatos. Virou secretário de saúde de Sorocaba em 1997. Nessa época, adotou os livros de administração. Atualmente, está lendo O Monge e o Executivo, de James C. Hunter, que trata de liderança e motivação de funcionários. O cargo de prefeito viria quase por acaso: em 2004, saiu como candidato a vice, na chapa encabeçada por Luiz Leite, secretário do desenvolvimento. Mas Leite teve sua candidatura impugnada por ter comparecido à inauguração de uma escola, e Lippi subiu ao palanque. Elegeu-se no segundo turno.

Filho e neto de médicos, descendente por parte de pai de imigrantes da Toscana, sua primeira tarefa como prefeito foi pensar a cidade que queria. "Antes de qualquer outra coisa, quis discutir o modelo a seguir", diz o prefeito, enquanto degusta um pedaço de bolo enviado pelo padre Wilson, coordenador de uma das seis cooperativas de catadores de lixo apoiadas pela prefeitura. Ainda secretário de saúde, foi a Montreal, no Canadá, conhecer as premissas da gestão municipal da cidade. "O conceito é o da cidade saudável, que promove a qualidade de vida", afirma. Numa viagem à Espanha, teve contato com o modelo de Barcelona, no qual a prioridade é a educação. "Resolvi alinhar todos os nossos projetos a esses dois conceitos", afirma.

Na área de saúde, a cidade abraçou a idéia de qualidade de vida, fazendo com que as várias secretarias trabalhem de forma coordenada. Se um grande vilão da saúde são os infartos, não adianta apenas contratar cardiologistas. É preciso criar mais parques e áreas onde as pessoas possam praticar atividades físicas. Ou seja, é assunto para ser tocado também pelas secretarias de urbanismo, esportes e lazer - e não apenas pela de saúde. A idéia faz sentido na teoria, mas sua execução não é simples. Lippi diz que trocou sete secretários porque tinham dificuldade de trabalhar em equipe. Na educação, o médico-prefeito está convencido de que, no futuro, haverá menos empregos, por causa da automação industrial - por isso, quer preparar as crianças das escolas públicas para serem empreendedoras. "Também trabalhamos a questão da inteligência emocional", diz Lippi. A prefeitura adotou em toda a rede pública um programa do Centro de Valorização da Vida (CVV) usado em escolas européias. Nas aulas, discutem-se questões como respeito, família, agressividade e inveja. "Os cidadãos que vamos formar precisam saber trabalhar em equipe, o que é fundamental hoje em dia", diz o prefeito.

Lippi chega à prefeitura às 8 da manhã e sai por volta das 10 da noite. As reuniões para cobrança de resultados são diárias, e exigem esforço de um sujeito que não tem temperamento naturalmente imperativo. Pior, seus auxiliares lembram que o trabalho na prefeitura é tocado, em boa medida, por funcionários indemissíveis. A prefeitura tem problemas que seriam inimagináveis na iniciativa privada, como as reuniões que sistematicamente começam com atraso. Quando os funcionários resistem a uma idéia, essa é uma maneira eficaz de sabotá-la. A rotina pesada é amenizada pelo sonho - quase fantasia - de um dia percorrer a Califórnia de carro com os filhos Vinícius, de 19, e Murilo, de 16. Enquanto isso não acontece, aos sábados ele anda de automóvel pela cidade que comanda, pedindo à mulher que anote o endereço das lixeiras quebradas e dos jardins abandonados. A vida do casal número 1 é dura. "Quando ele passa em casa às 8 da noite, é só pra trocar de roupa", diz a primeira-dama. Na clínica médica da família, há uma sala reservada para quando Lippi cansar-se da política - ou quando a política cansar-se dele, o que é mais freqüente na vida pública.

O ESTILO LIPPI
Algumas iniciativas do prefeito de Sorocaba para melhorar a gestão do município:
>> O tempo de abertura de uma empresa na cidade, que era em média de 120 dias, foi reduzido para 15. O processo agora pode ser feito pela internet.

>> Funcionários da prefeitura mapearam ao longo de um ano 5 mil procedimentos internos feitos pelas diversas repartições, quase todos inúteis ou repetitivos. O número foi reduzido para 158.

>> A prefeitura bancou um treinamento em construção civil para os 28 jovens que pediam esmolas nos sinais da cidade. Metade continuou na nova carreira e outra metade não se adaptou. Mas ninguém voltou às ruas.

>> Um pregão eletrônico no município gerou economia média de 28% no valor das aquisições da prefeitura.

>> Como não pode dar prêmios em dinheiro aos servidores públicos, Lippi criou o Prêmio Sorocaba de Gestão Pública, cujo regulamento foi baseado no Prêmio Nacional da Qualidade.

>> Sorocaba uniu-se a cinco cidades do interior paulista para trocar experiências de gestão. Em pouco mais de um ano, já foram realizados mais de 50 encontros.

O prefeito tem sido beneficiado em seu trabalho pelo boom econômico da cidade. Se São José dos Campos e Campinas já foram o destino de empresas que queriam sair de São Paulo, Sorocaba parece ser a bola da vez. A cada mês, uma grande empresa se instala ali. O PIB em 2006 ficou em R$ 8,5 bilhões (ou R$ 14,7 mil per capita, valor próximo ao da cidade de São Paulo). Entre nascidos e migrantes, são 60 novas almas a cada dia no município. E 40 carros a mais. Entre 1996 e 2007, o orçamento da prefeitura pulou de R$ 162 milhões para quase R$ 1 bilhão. "Sorocaba é outra cidade", diz o historiador e jornalista sorocabano Sérgio Coelho de Oliveira.

A redução do tempo de abertura das empresas - que começou a funcionar em maio de 2007 e tornou o prefeito famoso - foi o ato mais notório de uma administração voltada ao empreendedorismo. Ela pode, inclusive, servir de exemplo para outros municípios brasileiros. Um relatório do Banco Mundial divulgado em agosto do ano passado colocou o Brasil na 122ª colocação num ranking que compara a facilidade para se fazer negócios em 178 países. De acordo com o Banco, uma empresa no país gasta em média 152 dias para completar seu processo de abertura, tempo comparável ao do Congo. Em Sorocaba, agora, o processo demora o mesmo que na Suécia. " Imagine, o cidadão queria abrir seu negócio, que ia gerar riqueza, empregos e impostos, e em alguns casos precisava esperar até seis meses", diz o prefeito. "Muitas vezes ele já havia alugado o local e, quando recebia autorização para trabalhar, já estava com dificuldades financeiras. Em vez de ajudar o empreendedor, acabávamos sendo uma barreira." Para melhorar o serviço, o mapa com o zoneamento da cidade foi digitalizado. E a prefeitura emite um alvará de funcionamento provisório anterior à vistoria do imóvel, o que antes representava um grande entrave. A medida só não vale para atividades de risco, como a estocagem de produtos químicos ou de bebidas alcoólicas. O processo na prefeitura consome no máximo dois dias, quando antes costumava demorar de 30 a 90. A meta agora é encurtar o tempo que as empresas gastam para se registrar no Estado e na Receita Federal, fazendo com que o tempo total de abertura de uma empresa caia para 5 dias, em média - igual ao padrão americano.

Apesar do trabalho vistoso que conduz na prefeitura, não é certo que Lippi conseguirá se apresentar para um segundo mandato. "Há um embate entre ele e o ex-prefeito Renato Amary para ver quem será o candidato", diz o deputado federal Antonio Carlos Pannunzio, ex-prefeito e líder do PSDB na Câmara. "Isso será decidido na convenção municipal do partido." A disputa vai ser dura, entre estilos opostos. "Amary é percebido como um político agressivo, trator, enquanto o atual prefeito tem imagem de bonzinho", diz Oliveira. Embora Lippi afirme que precisaria de "mais tempo" para concluir a transformação da prefeitura, seu partido pode não lhe dar essa oportunidade. A política tem lógica própria.


Fonte: Por Eduardo Ferraz, in epocanegocios.globo.com

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