Pular para o conteúdo principal

Lobby responsável: como as empresas se relacionam com o poder público?

O combate à corrupção é visto cada vez mais pelos entusiastas do desenvolvimento sustentável como uma questão fundamental para administrar um planeta que terá 9 bilhões de habitantes até 2050. A preocupação com o tema existe porque a corrupção funciona como um freio ao crescimento. O assunto é delicado - e o problema, ao contrário do que muitos pensam, não é apenas do mundo em desenvolvimento. No Reino Unido, recentemente, o Serious Fraud Office (departamento de fraudes graves) do governo gerou uma enorme controvérsia ao abandonar as investigações sobre as acusações de suborno e corrupção envolvendo a empreiteira BAE Systems e o governo da Arábia Saudita.

Nesse contexto, vem crescendo a preocupação com a influência política do meio empresarial. Em 2000, a SustainAbility deu início a um programa de pesquisa sobre o assunto com a GPC, consultoria sediada em Bruxelas, num programa batizado de Janus. O nome foi inspirado em Jano, o deus romano de duas caras. Suas duas faces representavam o passado e o futuro, ir e vir, início e fim.

Na tentativa de influenciar o que acontece no poder público, as empresas precisam olhar tanto para suas próprias necessidades quanto para os planos de ação do governo. Mas, muitas vezes, é com "duas caras" que o mundo corporativo se relaciona com o setor público. Atualmente, por exemplo, existe um risco crescente de que as companhias façam alarde de suas boas ações - em questões como as mudanças climáticas, por exemplo - ao mesmo tempo que, sorrateiramente, fazem lobby junto a políticos para impedir seu avanço.

Num primeiro relatório da SustainAbility sobre corrupção, argumentamos que as empresas deveriam ser mais transparentes sobre suas ações na esfera pública. Afirmamos também que elas deveriam levar em conta o desenvolvimento de políticas sobre temas de interesse público em parceria com grupos da sociedade civil. Na época, a sugestão de que a responsabilidade corporativa e as ações de lobby responsável pudessem ser conectadas foi mal recebida pelo mundo empresarial.

Em nosso relatório mais recente, no entanto, descobrimos que algumas companhias estão entrando em ação. Empresas como Anglo American, BT, GlaxoSmithKline, HP e Nike vêm demonstrando crescente transparência no que diz respeito a suas posições políticas. A BT, por exemplo, fornece informações detalhadas sobre as associações de negócios de que faz parte, sobre sua posição política em questões específicas e sobre as tentativas de exercer influência em aspectos relevantes para a indústria.

Um dos movimentos mais interessantes acontece na comunidade de investimentos. Pesquisadores e investidores, como os da Generation Investment Management, fundada pelo ex-vice-presidente americano Al Gore, e da KLD Research & Analytics, estão buscando meios para avaliar as ações de lobby das empresas. Eles se concentram no risco que essa atividade pode representar para a reputação das companhias.


Fonte: Por John Elkington, com Jodie Thorpe, gerente do programa da SustainAbility para Economias Emergentes; John Elkington é fundador da SustainAbility, in epocanegocios.globo.com

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

Omni aposta no marketing de rede

Nas tardes de domingo, em diferentes cidades do Brasil, milhares de pessoas vestem suas melhores roupas e se arrumam para ir às reuniões promovidas pela Omni International, empresa paulista que vende lojas virtuais. Recentemente, um desses encontros ocorreu num auditório no bairro de Pinheiros, na zona oeste de São Paulo. O local é imenso, com espaço para acomodar até 1 000 pessoas. Vitrais com cenas da vida de Jesus Cristo indicam que o prédio abriga um templo religioso. Mas, durante a reunião, o palco dos pregadores cede espaço a homens e mulheres que fazem parte da comunidade Omni -- gente que comprou e também vendeu os sites da empresa. Sorridentes e bem vestidos, eles contam suas histórias de sucesso e profetizam uma trajetória de enriquecimento para quem se empenhar. Um dos apresentadores anuncia que já comprou um automóvel Audi. O outro, um Porsche. "Vocês podem ser vencedores", diz um dos palestrantes. "Só precisam de uma oportunidade." As reuniões têm como ...

H2OH! - um produto desacreditado que virou sucesso

O executivo carioca Carlos Ricardo, diretor de marketing da divisão Elma Chips da Pepsico, a gigante americana do setor de alimentos e bebidas, é hoje visto como uma estrela em ascensão no mundo do marketing. Ele é o principal responsável pela criação e pelo lançamento de um produto que movimentou, de forma surpreendente, o mercado de bebidas em 11 países. A princípio, pouca gente fora da Pepsi e da Ambev, empresas responsáveis por sua produção, colocava fé na H2OH!, bebida que fica a meio caminho entre a água com sabor e o refrigerante diet. Mas em apenas um ano a H2OH! conquistou 25% do mercado brasileiro de bebidas sem açúcar, deixando para trás marcas tradicionais, como Coca-Cola Light e Guaraná Antarctica Diet. Além dos números de vendas, a H2OH! praticamente deu origem a uma nova categoria de produto, na qual tem concorrentes como a Aquarius Fresh, da Coca-Cola, e que já é maior do que segmentos consagrados, como os de leites com sabores, bebidas à base de soja, chás gelados e su...

Construtora pega carona com o Gugu

Há cerca de um mês, o empresário carioca Augusto Martinez, dono do grupo imobiliário AGM, foi convidado para um jantar entre amigos num elegante apartamento da avenida Vieira Souto, em Ipanema, o endereço mais caro do Rio de Janeiro. A comida estava boa, a conversa agradável, mas durante toda a noite Martinez ficou intrigado com a estranha familiaridade com que era tratado por um dos garçons, que insistia em chamá-lo de Augusto. Vasculhou a memória tentando se lembrar de onde eles se conheciam. Nada. "O senhor não me conhece, não", disse o garçom quando perguntado. "Mas eu conheço bem o senhor. Não perco seus programas." Aos 49 anos de idade, freqüentador da elite de empresários cariocas e dono de quatro empresas que faturam 300 milhões de reais por ano, Martinez recentemente descobriu o que é ser uma pequena celebridade popular. Desde maio deste ano, ele ajuda a apresentar um quadro quinzenal no programa Domingo Legal, de Gugu Liberato, no SBT. Batizado de Construi...