Xeque-mate no mundo dos negócios

O mundo dos negócios é ilimitado se comparado às 64 casas do tabuleiro de xadrez. Mas, devido ao seu âmbito reduzido, o jogo proporciona um modelo muito versátil sobre a tomada de decisões.

No xadrez, sucesso e fracasso medem-se por padrões muito rigorosos. Se você errar
nas decisões, sua posição se enfraquecerá e o pêndulo oscilará para o lado da derrota. Se acertar, rumará para a vitória.

O que é melhor para um gerente, para um escritor ou um jogador de xadrez? O conhecimento de si mesmo e o desafio. Em outras palavra, como desafiamos a nós mesmos e aos outros, de forma a aprendermos a tomar as melhores decisões possíveis.

As regras do xadrez e dos negócios são iguais para todos, diz Gary Kasparov, em seu livro Como a vida imita o xadrez. O que devemos fazer, diz o genial enxadrista, é detectar o que funciona melhor para nós e permite desenvolvermos mais rapidamente, à base de desafios e dificuldades, nosso próprio método. Como conseguir o sucesso é um segredo, porque só é possível descobri-lo analisando nossas próprias decisões. Assim, embora não se possa ensinar as pessoas a tomar decisões melhores, pode-se aprender consigo mesmo.

Conhecer a si mesmo
"Meu melhor mestre foi Anatoli Karpov", diz Kasparov. O famoso duelo entre os dois, em 1984, durou cinco meses, 48 partidas e milhares de horas de jogo e de estudo. Foi preciso suspendê-lo, porque ninguém parecia capaz de chegar às seis partidas ganhas. "Não só aprendi sua forma de jogar, como tomei consciência de meu próprio sistema. Era muito mais capaz de identificar meus erros e as razões pelas quais os cometia. Questionei a mim mesmo em lugar de confiar unicamente em meus instintos".
Conhecer a si mesmo é essencial para combinar a própria sabedoria, experiência e talento com um maior rendimento. Desta forma, é preciso estar profundamente consciente dos métodos que nos levam à tomada de decisões.

Kasparov recupera a palavra estratégia, que hoje em dia é aplicada a tudo, independentemente do quanto trivial possa parecer. O planejamento a longo prazo não tem a ver com decisões futuras, mas com o futuro das decisões atuais. As táticas para o futuro não são estratégia. As táticas se realizam com base em cálculos: se o adversário faz tal coisa, eu faço a outra. Se ele me tirou um peão, eu tomo seu bispo. Se o nosso concorrente aumenta os preços, nós aumentamos a produção. São reações programadas, mas a estratégia tem a ver mais com os objetivos.

Há um ditado no xadrez que diz que a tática consiste em saber o que é preciso fazer quando e onde há algo para fazer, enquanto a estratégia consiste em saber o que é preciso fazer quando não há nada para fazer. Os diretores que jogam a culpa em uma estratégia falha não têm nenhuma estratégia. Passam de uma escaramuça tática para outra sem seguir nenhum rumo estratégico.

Foi o que ocorreu com Alexei Fedorov que, em uma partida contra Kasparov, se lançou a um ataque a sangue e fogo. Ignorando o resto do tabuleiro, lançou todos os seus peões contra o rei contrário desde o princípio. Em lugar de entrar na luta corpo a corpo, Kasparov manteve o sangue frio, contratacou por um dos flancos e conseguiu a vitória.

O que faltou a Fedorov foi perguntar-se que condições deveriam surgir para que seu ataque triunfasse. Decidiu que queria cruzar o rio e se jogou diretamente na água, em lugar de procurar uma ponte.

Calma e autocontrole
É difícil manter o rumo e não cair na tentação de aceitar o desafio do concorrente. Isto exige um autocontrole firme, pois as pressões para mudar são enormes. Nosso ego deseja provar que podemos batê-lo em seu próprio terreno.

Cada enxadrista e cada empresa podem ter estratégias diferentes na mesma posição, que podem resultar igualmente eficazes. Mikhail Botvinnik confiava na autodisciplina rigorosa, no trabalho duro e no rigor científico, enquanto seu rival Mikhail Tal fomentava sua própria imaginação e uma criatividade desenfreada. Ambos foram campeões do mundo.

Nos negócios também não existe uma única estratégia. Cinqüenta por cento das decisões de um alto executivo são idênticas às de qualquer homem de negócios competente. São os outros 50% - ou mesmo estes 10% mais complicados - que fazem a diferença.

O guru japonês Kenichi Ohmae diz que a pergunta: "Por quê?" é a que distingue os empregados dos visionários. Se quisermos entender e desenvolver nossa estratégia, deveremos fazer-nos constantemente esta pergunta. Há muitos enxadristas que repetem os movimentos que muitos grandes mestres realizaram anteriormente e nunca chegam a saber por que fazem isto.

Questionar a si mesmo deve converter-se em um hábito suficientemente arraigado para superar os obstáculos do excesso de confiança e do desânimo. É um músculo que se desenvolve somente com a prática constante. Seja na empresa seja em uma partida de xadrez.

Revolucionário na política
Nascido no Azerbaijão, em 1963, Kasparov foi um dos enxadristas mais virtuosos de todos os tempos. Aposentou-se em 2005, após vencer pela nona vez o "Wimbledon" do xadrez.

Embora seja assessor estratégico de várias empresas e instituições financeiras, sua atenção de concentra agora em introduzir a renovação, que impulsionou primeiramente o xadrez soviético e posteriormente o mundial, na política russa. "Gostaria de mudar o estado desastroso do governo do meu país. O regime é corrupto e desmantelou as instituições democráticas da Rússia e será uma ameaça aos países vizinhos e para o mundo. Gostaria de que minha participação ajudasse a mudar esta realidade, antes que fosse tarde demais".


Fonte: Por Manuel Del Pozo/Expansión, in Gazeta Mercantil/Caderno C - Pág. 9
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