Pular para o conteúdo principal

O poder do consumidor no mundo digital

A fabricante de cosméticos O Boticário passou a monitorar recentemente na internet. Num desses endereços eletrônicos, uma consumidora reclamou da retirada de um perfume do mercado. Seguida por diversas manifestações de apoio de outros internautas, a queixa foi considerada pertinente pela empresa. Ela falou com a cliente insatisfeita e está discutindo a volta do produto às prateleiras.

Em agosto, o jornal O Estado de S.Paulo retirou um comercial do ar graças à pressão de blogueiros. Nele, brincava com a idéia de um macaquinho que copia e cola informações na internet. Muitos internautas consideraram a peça ofensiva. No período de alguns dias, foram postados em blogs brasileiros mais de mil textos, a maioria deles com palavras de revolta e indignação. Como tudo que faz barulho na web, a polêmica extrapolou fronteiras e chegou ao blog americano de maior audiência, o Boing Boing. Enquanto a polêmica se desenrolava, o comercial saiu do ar.

Em fevereiro deste ano, a Dell, segunda maior fabricante de computadores do mundo, criou um site, o Ideastorm, que promove a total integração com os consumidores. Lá, os internautas podem votar no design de um novo computador e têm a chance de interferir na concepção e no desenvolvimento de produtos. Os consumidores mais ativos e influentes participam do teste de equipamentos. A opinião dessa turma tem o poder de vetar ou não um lançamento.

Tudo isso parece meio novo e perigoso? Tudo isso parece extremamente interessante? Bem-vindo ao mundo da web 2.0 e ao poder do consumidor digital, o novo mantra do mundo dos negócios.

Usada pela primeira vez durante uma conferência do empresário e ativista da internet Tim O’Reilly, a expressão web 2.0 parece ter vindo para ficar. Mais do que uma revolução técnica, ela expressa uma mudança radical de atitude em relação à internet – a tendência aparentemente irresistível à colaboração e geração autônoma de conteúdo que ganhou corpo na internet nos últimos anos. Web 2.0 diz respeito ao espírito de transparência que orienta o convívio na rede: ele força empresas e seus dirigentes a dialogar e explicar-se diretamente com seus clientes, através de blogs e sites corporativos. Web 2.0 é sinônimo também de sinergia e de novas oportunidades de negócios. As empresas que souberem explorar a criatividade e o espírito de colaboração dispersos na rede – como a Dell – terão a seu dispor o mar de engenhosidade criado pela globalização digital. Acima de tudo, porém, web 2.0 evoca a idéia de um novo tipo de consumidor, capaz de, simultaneamente, criticar, adular e ajudar as empresas que souberem aliar-se a ele. Calcula-se que cerca de 420 milhões de pessoas circulem diariamente pelos sites interativos da web 2.0. Esse é o público com o qual as companhias de ora em diante terão de lidar. Esse é o futuro.

Se, no passado, bastava às empresas colocarem no ar um site elegante com informações atualizadas – a web 1.0 –, isso tornou-se francamente insuficiente. Estar bem posicionado na rede exige atenção permanente, interação profunda e reação rápida ao que acontece no mundo virtual. Com audiência global de quase 1 bilhão de pessoas, e taxa de crescimento exponencial, a internet é o espelho do planeta no que ele tem de mais dinâmico – e o impacto dessa multidão virtual sobre as empresas não pode ser exagerado.

Expostas como nunca, elas estão descobrindo a força implacável que vem do outro lado do balcão, o lado do consumidor. “Os números evidenciam a importância vital que a web 2.0 passou a ter para a estratégia de negócios das empresas”, afirma Roberto Leuzinger, diretor da consultoria Booz Allen Hamilton e um dos coordenadores de um estudo internacional inédito sobre o tema: “Quem ficar fora desse processo, inevitavelmente perderá competitividade”.

RAIO-X DO UNIVERSO COLABORATIVO
Nascida há três anos, a web 2.0 é uma ilustre desconhecida para muitas empresas. Confira a seguir o que é, quando surgiu, como funciona, a participação brasileira e as aplicações tecnológicas desse novo ambiente virtual

COMO FUNCIONA
O QUE É O termo Web 2.0 diz respeito a aplicações online que permitem interagir em comunidades virtuais, veicular informações e compartilhar conteúdos. Na Web 2.0, os usuários não utilizam a internet apenas como fonte de informação -
eles criam a própria informação

QUANDO SURGIU
As tecnologias da segunda geração da internet já existiam desde a década de 90. Mas foi a partir da expansão da banda larga e da criação de programas para facilitar a produção do conteúdo da rede que surgiram os sites marcados por colaboração, formação de comunidades e compartilhamento de informações. O termo web 2.0 foi cunhado em uma conferência realizada em 2004 pelo empresário irlandês e ativista da internet Tim O'Reilly. Ele patenteou a expressão


BRASIL RECORDISTA
O Brasil é o país com maior tempo médio de navegação residencial por internauta. Os brasileiros passam, por mês, 23H30MIN na rede mundial. A seguir vêm Eua (19h52min) e Japão (18h41min)

Dos 55 milhões de participantes do Orkut, site de relacionamento que se tornou uma febre, 54% (29,7 milhões) são brasileiros. Nos Estados Unidos, há apenas 9,9 milhões de usuários

O Messenger, sistema instantâneo de troca de mensagens e compartilhamento de arquivos, tem 30 milhões de integrantes brasileiros, o equivalente a 12% do total mundial. Em números absolutos, ninguém supera os usuários do Brasil

76% dos internautas brasileiros visitam endereços eletrônicos de relacionamento, mais do que os usuários da Alemanha (73%), dos Estados Unidos (71%) e do Reino Unido (41%)


Fonte: Por Amauri Segalla, Aline Ribeiro e Rafael Barifouse, in epocanegocios.globo.com

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

H2OH! - um produto desacreditado que virou sucesso

O executivo carioca Carlos Ricardo, diretor de marketing da divisão Elma Chips da Pepsico, a gigante americana do setor de alimentos e bebidas, é hoje visto como uma estrela em ascensão no mundo do marketing. Ele é o principal responsável pela criação e pelo lançamento de um produto que movimentou, de forma surpreendente, o mercado de bebidas em 11 países. A princípio, pouca gente fora da Pepsi e da Ambev, empresas responsáveis por sua produção, colocava fé na H2OH!, bebida que fica a meio caminho entre a água com sabor e o refrigerante diet. Mas em apenas um ano a H2OH! conquistou 25% do mercado brasileiro de bebidas sem açúcar, deixando para trás marcas tradicionais, como Coca-Cola Light e Guaraná Antarctica Diet. Além dos números de vendas, a H2OH! praticamente deu origem a uma nova categoria de produto, na qual tem concorrentes como a Aquarius Fresh, da Coca-Cola, e que já é maior do que segmentos consagrados, como os de leites com sabores, bebidas à base de soja, chás gelados e su...

Omni aposta no marketing de rede

Nas tardes de domingo, em diferentes cidades do Brasil, milhares de pessoas vestem suas melhores roupas e se arrumam para ir às reuniões promovidas pela Omni International, empresa paulista que vende lojas virtuais. Recentemente, um desses encontros ocorreu num auditório no bairro de Pinheiros, na zona oeste de São Paulo. O local é imenso, com espaço para acomodar até 1 000 pessoas. Vitrais com cenas da vida de Jesus Cristo indicam que o prédio abriga um templo religioso. Mas, durante a reunião, o palco dos pregadores cede espaço a homens e mulheres que fazem parte da comunidade Omni -- gente que comprou e também vendeu os sites da empresa. Sorridentes e bem vestidos, eles contam suas histórias de sucesso e profetizam uma trajetória de enriquecimento para quem se empenhar. Um dos apresentadores anuncia que já comprou um automóvel Audi. O outro, um Porsche. "Vocês podem ser vencedores", diz um dos palestrantes. "Só precisam de uma oportunidade." As reuniões têm como ...

Construtora pega carona com o Gugu

Há cerca de um mês, o empresário carioca Augusto Martinez, dono do grupo imobiliário AGM, foi convidado para um jantar entre amigos num elegante apartamento da avenida Vieira Souto, em Ipanema, o endereço mais caro do Rio de Janeiro. A comida estava boa, a conversa agradável, mas durante toda a noite Martinez ficou intrigado com a estranha familiaridade com que era tratado por um dos garçons, que insistia em chamá-lo de Augusto. Vasculhou a memória tentando se lembrar de onde eles se conheciam. Nada. "O senhor não me conhece, não", disse o garçom quando perguntado. "Mas eu conheço bem o senhor. Não perco seus programas." Aos 49 anos de idade, freqüentador da elite de empresários cariocas e dono de quatro empresas que faturam 300 milhões de reais por ano, Martinez recentemente descobriu o que é ser uma pequena celebridade popular. Desde maio deste ano, ele ajuda a apresentar um quadro quinzenal no programa Domingo Legal, de Gugu Liberato, no SBT. Batizado de Construi...